Avanço da Petrobras no Rio Grande do Norte é incerto, diz ex-presidente Jean Paul Prates

O anúncio da Petrobras sobre a retomada da perfuração de poços na Bacia Potiguar reacendeu expectativas sobre um novo ciclo econômico no Rio Grande do Norte. Mas, na avaliação do ex-presidente da estatal e ex-senador Jean Paul Prates, os efeitos desse movimento ainda dependem de fatores técnicos e estruturais que não estão garantidos no curto prazo.
Em entrevista a O CORREIO DE HOJE, Prates afirmou que os investimentos não representam uma mudança repentina, mas a continuidade de um processo iniciado anteriormente. “Esses investimentos anunciados pela Petrobras para o Rio Grande do Norte não surgiram agora nem são uma reação direta à conjuntura internacional. Projetos dessa natureza são estruturados ao longo de anos, com base em estudos geológicos, planejamento estratégico e decisões de portfólio”, disse.
Segundo ele, durante sua gestão à frente da Petrobras, já havia sido iniciada uma retomada concreta da presença da companhia no Estado. “Nós já havíamos retomado de forma concreta a presença da companhia no Estado. Realizamos a perfuração de poços importantes, como Anhangá e Pitu Oeste, reativando a atividade exploratória na Bacia Potiguar. Trouxemos de volta protagonismo para o Rio Grande do Norte dentro da estrutura da empresa”, afirmou.
Esse movimento incluiu, ainda, a reestruturação da atuação da estatal no território potiguar. Prates destacou a reinstalação de um polo operacional em Natal, com a criação de um campus regional da Universidade Petrobras, além da centralização do monitoramento ambiental da Margem Equatorial e da coordenação de projetos ligados à energia offshore. “Estruturamos uma base que integra óleo, gás e renováveis”, resumiu.
Para o ex-presidente, o anúncio recente dialoga diretamente com esse processo anterior. “Os investimentos agora anunciados representam, na prática, a continuidade de uma estratégia que já vinha sendo construída, e que posiciona o Estado como um polo relevante tanto na exploração de petróleo quanto na transição energética”, disse.
Prates também fez questão de diferenciar os componentes do pacote de investimentos. Segundo ele, nem todas as ações têm o mesmo potencial econômico. “O arrasamento de poços é uma obrigação regulatória, necessária para o encerramento responsável de campos maduros. Já a perfuração em maiores profundidades é o que efetivamente pode gerar nova produção e abrir uma nova fronteira para o Estado”, explicou.
No campo das expectativas, o ex-presidente adotou um tom cauteloso. Ele reconheceu o potencial de expansão, mas alertou para a necessidade de confirmação técnica. “A possibilidade de produção na casa de 100 mil barris por dia é compatível com projetos bem-sucedidos, mas depende da confirmação das reservas. Pode ser maior ou menor, conforme os resultados exploratórios”, afirmou.
A estimativa de crescimento de até 30% do Produto Interno Bruto do Estado, mencionada por integrantes do governo, também foi relativizada. “São cenários otimistas, que exigem escala, continuidade de investimentos e forte encadeamento produtivo local”, disse.
Prates ressaltou que, neste momento, a exploração ainda está em fase inicial, sem volumes certificados de reservas. “No caso da Margem Equatorial e da Bacia Potiguar em águas profundas, ainda estamos em fase exploratória ou pré-delimitação. Isso significa que não há, neste momento, volumes certificados de reservas recuperáveis divulgados publicamente”, explicou.
Segundo ele, números mais precisos só poderão ser definidos após novas etapas técnicas. “Qualquer número depende da perfuração de poços adicionais, testes de formação e posterior declaração de comercialidade”, disse.
No caso da produção, o patamar de 100 mil barris por dia é considerado uma referência possível, mas não garantida. “Esse nível de produção colocaria o Rio Grande do Norte novamente como um player relevante no cenário nacional. Pode ser maior, caso haja múltiplos campos, ou menor, se os reservatórios forem mais modestos”, afirmou.
Sobre geração de empregos, Prates destacou que o impacto tende a ser mais amplo na cadeia indireta do que na operação direta. “Empregos diretos na perfuração offshore são limitados, mas altamente qualificados. O maior efeito vem dos empregos indiretos e induzidos, na cadeia de serviços, logística, manutenção, transporte e apoio operacional”, disse. Segundo ele, projetos desse porte costumam gerar “alguns milhares de empregos ao longo da fase de implantação” e depois “algumas centenas a poucos milhares na fase operacional contínua”.
Mesmo diante desse potencial, o ex-presidente reforçou que os efeitos não são automáticos. “O que se pode afirmar com segurança é que, se esses projetos se consolidarem, haverá geração de empregos, aumento de arrecadação via royalties, dinamização da cadeia de fornecedores e potencial atração de novos investimentos. Mas isso não ocorre automaticamente”, afirmou.
Ele destacou que o aproveitamento dos benefícios depende da capacidade local. “O Estado precisa estar preparado para capturar esse valor, com qualificação de mão de obra, infraestrutura e políticas de desenvolvimento bem direcionadas”, disse.
Outro ponto levantado por Prates é que o crescimento do PIB não necessariamente se traduz em melhoria proporcional na renda da população. “Um aumento expressivo do PIB pode ocorrer ao longo de alguns anos, mas isso não significa automaticamente distribuição de renda, caso não haja políticas associadas”, observou.
Ao final, o ex-presidente da Petrobras sintetizou o momento como uma oportunidade em construção, e não como resultado consolidado. “Não se trata de um movimento pontual. Trata-se da continuidade de uma estratégia que recolocou o Rio Grande do Norte no mapa energético do país, agora com a oportunidade de avançar ainda mais, combinando petróleo, gás e novas energias dentro de uma visão integrada”, afirmou.
Por O Correio de Hoje
