Da liminar ao cancelamento: entenda o que aconteceu no último debate entre os presidenciáveis antes do 1º turno das eleições

O último debate presidencial antes do primeiro turno das eleições foi cancelado pela TV Globo após uma sequência de decisões do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do Supremo Tribunal Federal (STF) que alteraram, em poucas horas, as regras e os participantes previstos para o programa. A disputa judicial envolveu a ausência de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a participação de Renan Santos (Missão) e terminou com a desistência de Flávio Bolsonaro (PL).
A primeira decisão ocorreu por volta das 18h30. A ministra Estela Aranha, do TSE, atendeu a um pedido da campanha de Lula e proibiu a Globo de exibir uma cadeira vazia no lugar reservado ao candidato do Partido dos Trabalhadores durante o debate.
O atual presidente da republica já havia informado que não participaria do confronto. Pelas regras definidas pela emissora com as campanhas, o púlpito de um candidato ausente poderia ser mostrado vazio.
Na decisão, Estela Aranha afirmou que a imagem da cadeira vazia poderia produzir efeitos “que transcendem a simples informação ao eleitorado acerca do não comparecimento”, além de apontar a existência de “perigo de dano” a poucos dias do primeiro turno.
A ministra também proibiu a emissora de conceder tempo para perguntas direcionadas a candidatos que não comparecessem ao debate, outra possibilidade prevista inicialmente no regulamento.
Decisão do STF sobre Renan Santos
O ministro Gilmar Mendes, do STF, próximo das 19h30, determinou a inclusão de Renan Santos no debate. A decisão foi tomada após pedido apresentado pelo partido Solidariedade, sem o conhecimento prévio do próprio candidato.
Até então, dois pedidos para garantir a participação de Renan haviam sido rejeitados, um pelo TSE e outro pelo STF.
Pelas regras eleitorais, emissoras devem convidar obrigatoriamente candidatos de partidos que tenham representação de pelo menos cinco parlamentares no Congresso Nacional. Com base nesse critério, a Globo havia convidado Augusto Cury (Avante), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD) e Lula (PT).
O cenário havia sofrido uma alteração dias antes do debate, quando o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Nunes Marques, decidiu que o Novo preenchia o requisito de representação parlamentar previsto na legislação. Com a decisão, Romeu Zema passou a estar apto a participar dos debates presidenciais das eleições de 2026.
Nas eleições de 2022, o Novo elegeu inicialmente três deputados federais: Adriana Ventura (SP), Gilson Marques (SC) e Marcel van Hattem (RS). Durante o mandato, Ricardo Salles (SP) e Luiz Lima (RJ) migraram de outras legendas para o partido, elevando a bancada da sigla na Câmara dos Deputados para cinco parlamentares.
Essa composição foi o principal argumento considerado pelo TSE para reconhecer que o Novo atendia ao requisito de representação parlamentar e, consequentemente, garantir a participação de Romeu Zema nos debates presidenciais de 2026.
Flávio Bolsonaro anuncia desistência
Enquanto Gilmar Mendes analisava o pedido relacionado a Renan Santos, Flávio Bolsonaro anunciou nas redes sociais que não participaria do debate. A decisão foi atribuída pelo candidato à liminar concedida pela ministra Estela Aranha.
Em publicação feita às 19h24, Flávio classificou a decisão do TSE como uma “censura” e afirmou que a imprensa precisa “ser livre” e as eleições, “limpas”.
Poucos minutos depois, às 19h27, Gilmar Mendes determinou que Renan Santos fosse incluído no debate da Globo.
A decisão contrariou entendimentos anteriores sobre a participação do candidato do Missão, que já havia recorrido ao TSE e ao próprio STF para tentar garantir presença no programa.
Pouco mais de uma hora depois, às 20h39, a Globo anunciou o cancelamento do debate. A emissora afirmou que as decisões de Estela Aranha, Gilmar Mendes e Nunes Marques interferiam nas regras previamente acordadas com as campanhas e provocavam uma “insegurança jurídica”.
Candidatos criticam decisões
Em uma live nas redes sociais, Flávio Bolsonaro afirmou que Lula “usou amigos” no Poder Judiciário para censurar o debate.
“É inadmissível o que está acontecendo. É o voto da revolta. Usou seus amigos no Judiciário para impor a censura no debate”, disse.
Após o cancelamento, Augusto Cury, Romeu Zema e Ronaldo Caiado criticaram as decisões judiciais. Os candidatos utilizaram uma estrutura disponibilizada pela Globo para falar com a imprensa que acompanhava o evento.
Cury criticou o cancelamento e direcionou as críticas ao STF.
“Na verdade, o STF ganhou um protagonismo desproporcional. Beira a um colapso da democracia, infelizmente”, declarou Cury.
Zema também criticou o Supremo e afirmou que o país vive um cenário de “insegurança política”. O candidato disse ainda que o Judiciário estaria “à serviço de Lula”.
“Judiciário faz política no Brasil. […] Faltando poucos minutos [para o debate], uma decisão judicial, ao meu entender, sem pé nem cabeça, muda tudo. Outro candidato [Flávio] desiste e nós estamos vendo a Justiça a serviço do Lula”, afirmou.
Caiado classificou o cancelamento do debate como um “atentado à democracia”.
“É um atentado à democracia brasileira. A palavra é essa. Ou seja, destruíram o processo eleitoral no país. […] Os responsáveis pelos Poderes constituídos estão destruindo, levando esses poderes à ruína, ao descrédito perante a sociedade brasileira”, declarou o candidato do PSD.
Renan Santos atribui cancelamento à desistência de Flávio
Após a decisão de Gilmar Mendes, Renan Santos organizou um ato em frente à sede da TV Globo, no Rio de Janeiro. O candidato atribuiu o cancelamento do debate à desistência de Flávio Bolsonaro.
“Flávio Bolsonaro cancelou sua participação três minutos após a minha participação ser oficializada. Flávio Bolsonaro teve medo, medo de última hora”, afirmou.
Lula critica formato dos debates
Lula acompanhou as decisões à distância enquanto se preparava para participar de um podcast, compromisso de campanha iniciado pouco depois das 21h.
Durante a conversa, o petista afirmou que os debates eleitorais “não produzem nada” e criticou o formato dos confrontos entre candidatos.
“Eu acho que esses debates são infrutíferos, não produzem nada. E aí começam a fazer gracinha, piada, pegadinha”, disse. “Quando você disputa a Presidência é algo sério, não está discutindo quem vai lacrar mais. Eu sinceramente não gosto deste tipo de debate”.
Com informações da CNN
