Dificuldade no abastecimento de água afeta 128 mil pessoas no RN

Postado em 3 de abril de 2026

O fornecimento de água pela Companhia de Águas e Esgotos do Rio Grande do Norte (Caern) enfrenta situação crítica em nove municípios, afetando 128 mil pessoas. Em Ouro Branco, São João do Sabugi e Serra do Mel, o abastecimento está em situação de colapso (suspenso por indisponibilidade hídrica). Já em Jardim do Seridó, Carnaúba dos Dantas, Parelhas, Equador, Almino Afonso, Tenente Ananias e São Miguel, o cenário é de pré-colapso (situação de risco iminente de colapso). Na quarta-feira (1º), o Governo do RN decretou emergência em praticamente todos os municípios (exceto Natal), por conta do longo período de estiagem no estado.

Para o decreto, dentre outros aspectos, o Governo considerou “que nove cidades permanecem em colapso ou pré-colapso no abastecimento executado pela Caern, atingindo diretamente cerca de 128 mil habitantes. O caso mais crítico, conforme publicado no Diário Oficial do Estado (DOE), é o de Serra do Mel, que se encontra em colapso há quatro anos por conta da contaminação de poços. “A situação é igualmente delicada nas regiões rurais mais remotas, onde a ausência de uma rede estruturada de adutoras impossibilita o fornecimento regular de água potável”, diz o decreto.

Segundo o Governo, 49,1% dos 167 municípios do RN têm a zona rural abastecida pelo programa da Operação Carro Pipa. Procurada, a Caern afirmou que “está focando em melhorias operacionais em sistemas adutores da região Alto Oeste. E no Seridó estão sendo adotadas medidas de redução de consumo”. A Companhia, no entanto, não especificou que medidas são essas. A Secretaria do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos do RN (Semarh) informou que tem implementado “um conjunto de ações, desde emergenciais a estruturantes”, a fim de permitir a convivência com a seca.

Dentre as ações, Paulo Varella, titular da pasta, citou a perfuração e dessalinização de poços. “O próprio decreto é uma ação dentro de um conjunto de esforços que estão sendo feitos desde o ano passado. Tivemos chuvas em fevereiro e março, que não foram suficientes para repor nossos reservatórios. Hoje, estamos com cerca de 40% desses reservatórios recuperados, mas há incertezas quanto a abril. O decreto nos traz uma carta de seguro para que, se necessário, tenhamos facilidade em variadas ações”, falou o secretário.

“Continuamos trabalhando em ações emergenciais, como é o caso de perfuração de poços, do programa de dessalinização e também com ações mais estruturantes, como a Barragem de Oiticica. Está sendo trabalhada, ainda, a distribuição dessa água no território, com o projeto Seridó, que vai levar segurança hídrica para a região de mesmo nome e que terá a primeira fase concluída no segundo semestre. Serão beneficiadas as cidades de São Vicente, Florânia, Currais Novos, Acari, Cruzeta”, falou.

O secretário disse que a pasta tem atuado para a implementação do projeto Seridó Sul, que está pronto e será inserido no PAC para licitação. “O projeto do Alto Oeste também está sendo finalizado para depois ser incluído no PAC. Além disso, há grandes estruturas que trabalham importando água, como a Transposição do São Francisco na região do Piranhas-Açu, que está no Seridó e chegará na área do Apodi em junho”, concluiu o secretário.

“Medidas tímidas”, diz setor produtivo

Para o setor produtivo do estado, o longo período de estiagem tem provocado impactos significativos. De acordo com José Vieira, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do RN (Faern), a agricultura de sequeiro (milho, feijão, sorgo) sofre com perdas expressivas de produtividade, frustração parcial ou total de safras em regiões do Seridó, Oeste e Agreste e redução da renda da agricultura familiar. Já a pecuária (bovina, caprina e ovina) enfrenta redução de pastagens naturais, aumento do custo com ração e suplementação, venda forçada de animais e consequente descapitalização dos produtores.

“A fruticultura irrigada apresenta impacto menor, porém crescente, com reservatórios importantes abaixo do ideal, como a barragem Armando Ribeiro Gonçalves. Além disso, há aumento do risco hídrico, elevação dos custos de bombeamento e maior pressão sobre a gestão da água. Na agroindústria, observa-se redução da oferta de matéria-prima e aumento de custos logísticos e operacionais. Os impactos não são isolados: eles se propagam ao longo das cadeias produtivas, afetando renda, emprego e a dinâmica econômica regional”, ressalta José Vieira.

As ações em curso para mitigação de efeitos, na avaliação dele, concentram-se, em grande medida, nos instrumentos emergenciais tradicionalmente mobilizados em períodos de seca, especialmente após o reconhecimento formal da situação de emergência. “Entre elas destacam-se a operação Carro-Pipa, perfuração de poços e instalação de sistemas simplificados de abastecimento, recuperação pontual de reservatórios e sistemas adutores, programas de apoio ao produtor, crédito emergencial e renegociação de dívidas rurais”, descreve o presidente da Faern.

“Essas ações são fundamentais para reduzir riscos imediatos e evitar o colapso do abastecimento humano. No entanto, não têm capacidade de reverter, no curto prazo, os prejuízos econômicos já acumulados no setor agropecuário”, diz José Vieira. Para Erivam do Carmo, presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do RN (Fetarn), as medidas adotadas são tímidas. “Temos um cenário muito delicado, de perdas agrícolas. As medidas para encarar a situação ainda são tímidas. Uma das principais medidas que nós gostaríamos é que houvesse um fundo específico para o Semiárido”, afirma.

Para a Federação dos Municípios do RN (Femurn), o “decreto, por si só, é apenas o início de um processo que exige celeridade e efetivas medidas”. A Federação elencou uma série de medidas para o enfrentamento da situação, dentre elas, a execução imediata de obras estruturantes que estão paradas, ampliação de sistemas adutores, liberação célere de recursos, crédito barato e desburocratização, ampliação urgente do abastecimento de água.

Questionado sobre ações de enfrentamento para o setor produtivo, o secretário de Agricultura e Pesca, Guilherme Saldanha, disse apenas que o foco do decreto recente é o abastecimento humano e, por isso, as ações do Governo do Estado têm se concentrado em medidas como a operação Carro-Pipa. “O Governo está fazendo um trabalho para que cada município não precise adotar um decreto próprio”, falou. A reportagem procurou a Secretaria de Estado do Desenvolvimento Rural e da Agricultura Familiar, mas não houve retorno às tentativas de contato.

tribuna do norte