Documentos da Prefeitura de Mossoró mostram que utilização do Hórus foi determinada antes de inquérito

A Prefeitura de Mossoró enviou à TRIBUNA DO NORTE documentos que mostram que a determinação para implementação do Hórus (Sistema Nacional de Gestão da Assistência Farmacêutica) ocorreu antes a abertura do inquérito criminal que investiga denúncias de desvios de recursos da Saúde no município. O decreto nº 6.994, ratificando a obrigatoriedade de utilização do sistema, foi publicado em 28 de dezembro de 2023 no Diário Oficial. Já a abertura do inquérito se deu em 24 de novembro de 2023, conforme apurou a TRIBUNA DO NORTE junto à assessoria de Comunicação Social da PF, em Natal.
Segundo a assessoria de imprensa da Prefeitura de Mossoró, no dia 25 de maio de 2023, o prefeito Allyson Bezerra (União Brasil) solicitou ao Chefe de Gabinete que encaminhasse à Secretaria Municipal de Saúde a determinação para a implementação do sistema Hórus, programa do Governo Federal utilizado para o armazenamento e a distribuição de medicamentos.

“No dia 4 de agosto de 2023, o prefeito enviou, por meio do Gabinete, um memorando à Secretaria Municipal de Saúde e a todas as gerências da área, reiterando a obrigatoriedade da utilização do sistema Hórus na Rede Municipal de Saúde”, disse a assessoria de imprensa da Prefeitura de Mossoró.
O inquérito aberto pela PF em novembro de 2023 investiga o período entre os anos de 2021 e 2025, com o objetivo de apurar desvios de recursos públicos e fraudes na área de saúde.

As investigações apontam indícios de irregularidades “em contratos de fornecimento de insumos para a rede pública de saúde, envolvendo empresas sediadas no Rio Grande do Norte”. Foram identificadas “falhas na execução contratual, incluindo indícios de não entrega de materiais, fornecimento inadequado e sobrepreço”, informou a PF.
O Hórus é o sistema eletrônico de gerenciamento e controle de armazenamento e distribuição de medicamentos, ficando conforme o decreto de nº 6.994 “a Controladoria Geral do município, responsável por acompanhar o cumprimento deste decreto”.
O prefeito Allyson Bezerra é pré-candidato a governador do Rio Grande do Norte às eleições deste ano.
Levantamento
A Prefeitura de Mossoró pagou R$ 14,2 milhões a empresas investigadas na Operação Mederi, da Polícia Federal, entre os anos de 2021 e 2025. A decisão judicial que autorizou medidas cautelares na investigação apura indícios de irregularidades em contratos na área da saúde em cinco municípios potiguares, e aponta que Mossoró é a principal remetente de recursos à empresa Dismed no período analisado.
Dados extraídos do Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Norte (TCE-RN) mostram que os valores pagos pelo município à Dismed, entre 2021 e 2025, somam R$ 13,6 milhões. O pico dos envios ocorreu em 2024, quando os repasses chegaram a quase R$ 6 milhões. A investigação também classifica Mossoró como o Município que mais enviou recursos à Drogaria Mais Saúde em 2025, ao destinar R$ 684,1 mil. Com isso, o volume de recursos movimentados entre 2021 e 2025 com as duas empresas alcança a cifra de R$ 14,2 milhões.
Na edição de 29 de janeiro, a TN revelou que o dano mínimo das supostas fraudes aos cofres públicos das cinco prefeituras investigadas é estimado em R$ 13,3 milhões — valor já bloqueado pela Justiça. Desse montante, a maior parte, R$ 9,5 milhões, foi bloqueada cautelarmente em Mossoró.
Os repasses à Dismed cresceram de forma progressiva ao longo dos anos. Em 2021, os pagamentos somaram R$ 143.895,00. Em 2022, o valor subiu para R$ 1.274.671,80. No ano seguinte, 2023, os repasses alcançaram R$ 3.401.155,73. O maior volume foi registrado em 2024, quando a Prefeitura de Mossoró pagou R$ 5.864.704,79 à empresa. Já em 2025, mesmo antes do encerramento do exercício, os pagamentos identificados chegam a R$ 2.920.640,16.
“O volume de recursos públicos envolvidos, somado ao volume de dinheiro em espécie sacado pelas empresas, por si só, já constituiria circunstância digna de suspeita acerca da licitude da relação mantida com o ente municipal”, diz trecho do documento ao qual a reportagem da TRIBUNA DO NORTE teve acesso.
TRIBUNA DO NORTE
