Em 11 meses, RN tem prejuízo de R$ 1,69 bilhão em cortes de geração de energia

Postado em 6 de janeiro de 2026

O Rio Grande do Norte acumulou cerca de R$ 1,69 bilhão de prejuízo com cortes de geração de energia renovável entre os meses de janeiro e novembro de 2025, segundo dados da consultoria Volt Robotics, baseados em índices do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). O estado repetiu, em novembro, o resultado de outubro, sendo o mais prejudicado do Brasil com os “curtailments”, como são chamados os cortes na geração determinados pelo ONS para evitar sobrecarga no sistema.Play Video

Em novembro passado, o RN perdeu 28,99% da capacidade de gerar energia eólica e solar. O Ceará ficou muito próximo desse índice, com 28,81% de perdas; e Minas Gerais ficou com 25,47%. No mês anterior (novembro de 2025), o RN já havia perdido 45,99% de sua capacidade de geração.

Especialistas destacam que 2025 foi um ano marcante para o setor de energias renováveis, com prejuízos bilionários para os geradores e a discussão de resoluções para o problema. A Volt Robotics aponta um prejuízo nacional de mais de R$ 6 bilhões entre janeiro e dezembro de 2025 – ao longo do ano, o País perdeu 20,6% da capacidade de gerar energia.

Relatório da consultoria aponta que a maioria dos cortes ocorre no setor eólico: em novembro, 72% da energia cortada era produzida nessas usinas, e 28% em usinas solares. “Durante agosto, setembro e outubro, o Brasil viu algo inédito: três recordes consecutivos de cortes de geração renovável. […] Uma combinação de fatores estruturais (crescimento acelerado das renováveis, sobretudo da geração distribuída), operacionais (rede não foi planejada adequadamente) e conjunturais”, explica o documento “Curtailment 2025: retrospectiva e projeção”.

Esse cenário, provocado por descompassos entre a demanda e a transmissão, preocupa especialistas. Os “curtailments” são determinados pelo ONS e ocorrem especialmente em dois cenários: quando a energia produzida é maior do que a consumida em determinado horário e quando as linhas de transmissão não conseguem escoar a energia que seria produzida.

“Luz no fim do túnel”

Para Hugo Fonseca, secretário-adjunto de Desenvolvimento Econômico do RN (Sedec), o ano passado evidenciou o problema dos cortes devido à crise do setor eólico. Segundo ele, o cenário é de pausa na venda de novos projetos, problemas de conexão e mais oferta do que demanda no mercado. “E, para agravar a situação, tem o curtailment, que impacta nos custos dos projetos que já estão em operação”, diz.

Ao mesmo tempo, o secretário afirma que 2025 mostrou uma “luz no fim do túnel” para o problema dos cortes, com a realização dos leilões de linhas de transmissão. No ano passado, os certames contemplaram cinco compensadores síncronos para o RN. O Leilão nº 01/2026, previsto para março deste ano, deve incluir a licitação de dois compensadores no RN, nas subestações Ceará-Mirim II e Açu III.

Ampliar as linhas de transmissão é uma alternativa aos problemas na capacidade de escoar energia e estancar essa perda de geração. No entanto, Fonseca observa que a mudança estrutural de que o setor precisa não se dará em breve. “Já vem se apontando a solução, que são os compensadores síncronos e o investimento em novas infraestruturas de transmissão. Mas a parte de infraestrutura é algo que não se resolve de um dia para a noite, porque são estruturas grandes, que demoram em média de dois a três anos [para ser instaladas]. Teremos um cenário de resolução, do ponto de vista estrutural, lá para 2029”, comenta.

Há ainda um “problema econômico”: a compensação por cortes aos geradores prejudicados. Esse desafio, segundo Fonseca, deve ser resolvido em discussões no Congresso Nacional.

O diretor-técnico regulatório da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica), Francisco Silva, destaca que 2025 foi um ano “difícil para as renováveis”, após níveis recordes de cortes de geração e prejuízos bilionários para o setor. “Mais para o final do ano, a gente percebeu um movimento de muitas das empresas desistindo de alguns projetos e entregando as outorgas desses projetos em função do volume de cortes que perceberam ao longo do ano passado”, afirma.

Consulta Pública

De acordo com ele, o setor está dialogando com o Ministério de Minas e Energia (MME) em torno de resoluções favoráveis aos geradores, que podem ser adotadas no início deste ano. O ministério lançou, pelo período de 15 dias, uma consulta pública sobre a compensação pelos “curtailments”.

Francisco Silva explica que a lei sancionada em 2025, que moderniza o marco regulatório do setor elétrico, trouxe um item relacionado a compensar os cortes do passado. O artigo 1º-B da Lei nº 10.848, incluído em 2025, reconhece a possibilidade de compensação dos custos relativos à indisponibilidade externa e ao atendimento a requisitos de confiabilidade elétrica da operação, desde 1º de setembro de 2023 até a entrada em vigor da Lei nº 15.269 (25 de novembro de 2025).

TRIBUNA DO NORTE