Empresa alvo de operação por suspeita de fraude na saúde firmou contratos com mais 12 municípios além dos investigados

Postado em 30 de janeiro de 2026

A empresa DISMED Serviços Médicos Ltda., que está no centro da Operação Mederi, firmou contratos com pelo menos 14 prefeituras do Rio Grande do Norte, além das que já haviam sido citadas publicamente como alvos da ação da Polícia Federal. A informação é resultado de uma pesquisa realizada pelo Blog do Dina, que revelam um histórico de contratações recorrentes, valores elevados, uso de modalidades questionáveis e indícios de irregularidades em diferentes municípios. Os municípios em questão não são investigados pela Operação Mederi.

Até agora, os municípios de Mossoró, Serra do Mel, Paraú, São Miguel e José da Penha foram mencionados em reportagens e comunicados oficiais como alvos de mandados de busca e apreensão. A nova apuração indica que a atuação da empresa é mais ampla do que o inicialmente noticiado, alcançando cidades pequenas, com orçamentos reduzidos, mas contratos expressivos com a mesma fornecedora.

Entre os contratos já noticiados, o caso de Mossoró se destaca pelo volume e pela velocidade das contratações. A prefeitura firmou quatro contratos com a DISMED, entre 2024 e 2026, totalizando R$ 6,3 milhões, com sucessivos termos aditivos. Os documentos apontam para um possível direcionamento, segundo suspeitas da Polícia Federal. Em José da Penha, os registros mostram nove contratos ativos entre 2022 e 2025, todos voltados à aquisição de medicamentos, com valores recorrentes e curtos intervalos entre as assinaturas, somando mais de R$ 4,3 milhões. O padrão chamou atenção dos investigadores por se repetir quase que sem variações no objeto contratado.

Areia Branca é outro município que aparece com contratações relevantes. A cidade firmou seis contratos com a DISMED, entre 2016 e 2025, totalizando R$ 3,6 milhões. A reincidência e os valores elevados reforçam o padrão de fornecimento em larga escala. Em todos os casos, o objeto principal era a aquisição de medicamentos, inclusive psicotrópicos e insumos hospitalares, para unidades básicas e hospitais municipais.

A apuração do Blog do Dina identificou 12 municípios com contratos firmados com a empresa investigada, que ainda não tinham sido associados publicamente à Operação Mederi. A lista inclui:

Campo Grande, com quatro contratos entre 2022 e 2024, no valor total de R$ 445,6 mil, incluindo uma contratação por dispensa de licitação, sem modalidade especificada. A concentração de três atas de registro de preços em 2024 levantou suspeitas de direcionamento.
Taboleiro Grande aparece com dois contratos, sendo que um termo aditivo firmado em 2021 não teve valor especificado no Diário Oficial. O valor total conhecido, de R$ 345 mil, refere-se a uma ARP prevista para 2025.
Em Felipe Guerra, foram identificados três contratos firmados com a DISMED entre 2021 e 2024, no total de R$ 134 mil, todos voltados para o fornecimento de medicamentos e material hospitalar. Apesar do histórico, não há irregularidades apontadas.
Alexandria chama atenção pela duplicidade de CNPJ da empresa nos documentos oficiais e por um contrato de R$ 172 mil identificado apenas por fragmentos de publicação, sem o número completo do processo. Um dos pregões da empresa, o de número 13/2024, foi cancelado sem explicação pública.
Em São Fernando, os contratos foram firmados por dispensa de licitação para aquisição de material descartável. Dois deles foram assinados em dias consecutivos (10 e 11 de março de 2025), o que levanta suspeitas sobre a fragmentação indevida de despesas para justificar a dispensa.
Apodi contratou a DISMED exclusivamente por dispensa de licitação em 2022 e 2023, num total de R$ 221 mil em aquisições emergenciais feitas num intervalo de apenas três meses.
Em Governador Dix-Sept Rosado, o contrato de maior valor — R$ 718 mil — foi firmado por adesão a uma Ata de Registro de Preços de outro município, Encanto/RN. Esse modelo, conhecido como “carona”, pode enfraquecer a concorrência e é frequentemente monitorado por órgãos de controle.
Já Upanema aparece com cinco contratos, no valor total de R$ 668 mil, firmados entre 2020 e 2024. Os dados públicos não indicam irregularidades claras, mas há recorrência no fornecimento pela mesma empresa.
Em Açu, dois contratos somam R$ 151 mil, mas os extratos do Diário Oficial apresentaram conflito no objeto contratado: ora apontando aquisição de medicamentos, ora de material elétrico — o que sugere falha na publicação oficial.
Carnaubais aparece com apenas um contrato de R$ 16 mil, sem informações detalhadas sobre objeto ou modalidade, e sem irregularidades apontadas até aqui.
Por fim, Itajá celebrou quatro contratos com a empresa entre 2023 e 2025, no valor total de R$ 251 mil. Embora haja recorrência nas contratações, não foi possível acessar os documentos originais no Diário Oficial para verificar detalhes como aditivos ou variação de valores.
A análise dos contratos mostra que a DISMED foi contratada majoritariamente por Pregão Eletrônico, com apoio de Atas de Registro de Preços (ARP) e, em diversos casos, dispensa de licitação, com justificativas emergenciais. Esse padrão é comum na área da saúde, mas passa a levantar suspeitas quando se repete em vários municípios, com objetos semelhantes, valores compatíveis e curtos intervalos entre as contratações.

Em Alexandria, por exemplo, a empresa aparece com dois CNPJs diferentes, o que pode indicar irregularidade fiscal ou tentativa de burlar concorrência. Já em Governador Dix-Sept Rosado, o uso de uma ARP originada em outro município pode ter permitido a contratação sem nova licitação, limitando a competitividade.

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