Família de jovem morta após erro de medicação realiza protesto

Postado em 16 de janeiro de 2026

Parentes e amigos de Gabriely Barbosa de Melo, de 19 anos, realizaram um protesto na manhã desta quinta-feira (15) em frente à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do bairro Potengi, na Zona Norte de Natal. O ato busca respostas e punições para os responsáveis pela morte da jovem indígena, que faleceu no último dia 5 de janeiro após passar 19 dias internada devido a um erro na administração de medicamentos dentro da unidade.

Para a família, a mobilização é a única forma de evitar que o caso caia no esquecimento. “Eu não quero que a morte da minha filha seja apenas mais uma estatística. É um grito por justiça e esclarecimentos, pois até agora enfrentamos um vazio de informações”, desabafou Aline Nascimento, 36 anos, mãe da jovem. “Não tivemos nenhum retorno ou explicação do que aconteceu com minha filha, porque quando ela entrou aí (na UPA) ela estava andando, sorrindo, falando… Tá muito difícil pra gente”, completou.


“Não é justo uma avó enterrar uma neta”, compartilha a avó de Gabriely, Maria Soares de Melo, de 67 anos, que descreve a neta como uma menina cheia de sonhos. Ela afirma que toda a família está enfrentando danos emocionais e psicológicos devido ao ocorrido. “Minha neta entrou aqui (na UPA) para tratar uma gripe, e saiu morta. A gente não dorme mais, a gente não vive mais”, contou emocionada. Segundo ela, os pais da jovem não conseguem sequer entrar na residência onde viviam com Gabriely.

A indignação também ecoa entre amigos próximos, como Iyaluciene de Oya, que cobrou rigor nas investigações. “O que aconteceu foi uma negligência fatal. Estamos aqui para dizer que a vida de uma jovem negra e indígena importa e que não vamos aceitar o silêncio como resposta”, afirmou a amiga da família.


“É uma vergonha para toda a sociedade o fato de até hoje a família de Gabriely estar desassistida”, afirmou Iyaluciene. “Não houve nenhum diálogo dos profissionais de saúde com a família de Gabriely depois do óbito. Não é fácil para essa família passar por toda essa situação e não ouvir nem, pelo menos, uma palavra de conforto”, completou.


A manifestação interditou a Avenida Sr. do Bonfim, no bairro Potengi, em frente à unidade de atendimento, por algumas horas. Os participantes levantavam cartazes e faixas com mensagens como: “Não nos calaremos”, “O sistema falhou com Gabriely” e “Queremos justiça”. A Guarda Municipal de Natal acompanhou todo o protesto.

De acordo com as últimas atualizações da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Natal, uma sindicância administrativa foi regularmente instaurada e ainda encontra-se em fase de instrução, com coleta de depoimentos e análise de relatórios técnicos e administrativos. Após essa etapa, será deliberado, de forma fundamentada, acerca da eventual instauração de Processo Administrativo Disciplinar (PAD), nos termos da legislação vigente.


Até então, dois servidores diretamente envolvidos foram afastados cautelarmente de suas atividades assistenciais. Porém, de acordo com a SMS, com o avanço da sindicância, outros trabalhadores também poderão ser convocados para maiores esclarecimentos. Até o momento, não há conclusão administrativa sobre o caso, afirmou a secretária.

O Conselho Regional de Farmácia do RN divulgou, nesta quinta-feira (15), uma nota oficial com resultados preliminares sobre o caso. Segundo o Conselho, após a fiscalização realizada na UPA do Potengi em 19 de dezembro de 2025, foram constatadas “irregularidades no processo de dispensação de medicamentos, envolvendo falhas operacionais e assistenciais no serviço de farmácia”.


De acordo com o órgão, o relatório técnico identificou “indícios de não conformidade relacionados às condições de funcionamento do serviço farmacêutico”, mas ressaltou que os fatos ainda estão em fase de análise, não sendo possível estabelecer “conclusões definitivas quanto às responsabilidades individuais ou institucionais”.


O Conselho de Farmácia reforçou que o documento tem caráter inicial e servirá de base para uma apuração mais aprofundada, reafirmando seu compromisso com a “segurança do paciente” e com a transparência das investigações.

tribuna do norte