Música é usada como recurso para lidar com a ansiedade

Postado em 9 de abril de 2026

Ansiedade não costuma anunciar sua chegada. Ela se instala aos poucos — um pensamento que não desacelera, um corpo que responde antes da razão, uma sensação difusa de que algo está fora de controle.

Em meio a esse cenário, cada vez mais pessoas recorrem a um recurso simples, acessível e quase instintivo: a música.

Não se trata apenas de distração. Para muitos, é uma forma de reorganizar o que está desordenado por dentro.

A psicóloga Luan Fernandes explica que a ansiedade, em sua origem, não é necessariamente um problema. “A ansiedade é uma reação natural esperada em todo ser humano, se trata de um estado de alerta que serve para enfrentar os desafios e perigos existentes no nosso dia a dia, mas torna-se patológica quando é contínua, paralisante e gera sintomas físicos intensos como taquicardia, falta de ar, medo de perder o controle, angústia, dentre outras”, afirma.

É nesse ponto — quando o estado de alerta deixa de ser funcional — que estratégias de regulação emocional passam a ser necessárias. E é aí que a música entra.

“Como estratégia de enfrentamento, a música surge como um potente recurso terapêutico complementar, capaz de promover relaxamento, foco e estabilidade emocional ao estimular a liberação de ‘hormônios do prazer’ como dopamina e serotonina e também endorfina e ocitocina”, explica a especialista.

O impacto não é apenas subjetivo. Há efeitos fisiológicos claros: a respiração desacelera, a tensão diminui, o corpo encontra um novo ritmo.

“Durante crises, a escuta musical auxilia na autorregulação do corpo, ajudando no controle da respiração e no desvio de pensamentos ansiosos por meio da evocação de memórias positivas e reflexões”, conta.

Na prática, isso significa interromper um ciclo. A música cria uma espécie de pausa — um espaço entre o estímulo e a reação.

Para o estudante Enzo Soares, esse efeito é imediato. “Sou uma pessoa que não vive sem música. A música me acalma, me leva para outros caminhos, lugares e reflexões. Sempre que estou mal recorro a ela. ”

Mais do que ouvir, ele descreve um deslocamento interno. “Acredito que ela funciona como uma distração e, também, como uma forma de expressar o que às vezes a gente não consegue colocar em palavras. Com a música consigo focar nos sons e na letra, o que tira um pouco a atenção dos pensamentos que estão me deixando inquieto”, conta.

Esse redirecionamento da atenção é um dos principais mecanismos apontados por especialistas. A mente, que antes estava presa em um fluxo repetitivo, passa a se ancorar em algo externo — e mais organizado.

Mas não existe uma fórmula única para isso funcionar. “Existem estudos que mostram que a música é um aliado nos tratamentos e que vai depender de cada pessoa escolher o tipo de música, reforçando o entendimento da subjetividade de cada ser humano. Melodias mais calmas ou agitadas não é a questão e sim o que cabe para cada ocasião e o que é aceito por cada pessoa”, afirma a psicóloga.

O que acalma não é necessariamente o ritmo — é o significado. Para alguns, isso passa por memória afetiva. Para outros, por identificação emocional.

O estudante Renan Felipe descreve essa relação de forma direta: “Sou uma pessoa bastante ansiosa e, infelizmente, as vezes essa ansiedade resulta em crise. Quando isso ocorre, uma das minhas primeiras atitudes é colocar uma música que me faça bem e que me leve a um lugar de conforto”, conta.

No caso dele, esse “lugar” tem som e lembrança. “Costumo ouvir MPB, Marisa Monte é uma das que eu mais ouço nesses momentos. Sua música me traz calmaria e me leva a minha infância onde minha mãe cantava pela casa. ”

A música, nesse contexto, não apenas acalma — reconecta. Ela reorganiza não só o presente, mas também a forma como o indivíduo se percebe dentro dele.

E, em alguns casos, esse impacto vai além do momento imediato. “Por causa de uma música do Tim Bernardes criei coragem para sair de uma relação que me fazia muito mal”, compartilha Renan.

O relato revela outra camada dessa relação: a música não apenas regula emoções — ela pode influenciar decisões.

Há também quem utilize a música como uma forma de tradução interna. Para a estudante Maria Eduardo Cirino, a música funciona como interpretação do próprio sentir. “Vejo na música um refúgio em dias onde minha mente está lidando com muitas coisas diferentes, pessoalmente gosto de analisar letras e atribuir sentido a elas, me é relaxante.”

Ela descreve uma relação ativa com o que ouve — quase como um diálogo interno.

“Acho que a música tem um poder especial de te fazer sentir o que ela quer que você sinta, ela tem uma força grande de mudar o seu humor.”

Playlists, nesse contexto, se tornam mapas emocionais. “Tenho as minhas próprias playlists para momentos específicos, não somente para quando estou ansiosa mas ‘Músicas para ouvir tomando um café’”, conta.

Durante a pandemia, esse recurso ganhou ainda mais peso. “Durante a pandemia, em meio a toda angústia da adolescência e o fato de estar presa em casa, meus artistas favoritos e suas músicas eram o que me davam perspectiva de um dia voltar à normalidade”, conta Maria Eduarda.

Há também quem use a música de forma quase automática, incorporada ao cotidiano. É o caso da estudante Larissa Silva. “A música me ajuda muito em momentos de ansiedade, desde antes de ser diagnosticada. Acredito que eu acabo tirando meu pensamento do momento específico e conseguindo visualizar coisas melhores, até mesmo sem perceber.”, diz.

Às vezes, o alívio está em pequenos rituais. “Uma das coisas que mais melhora meu humor, principalmente bem cedo, é quando eu tomo um banho escutando música e parece que tudo se acalma.”

E há um reconhecimento silencioso, quase retrospectivo: “Eu acredito que a música já pode ter me salvado sem eu até mesmo perceber, por exemplo, evitar de eu ter momentos de ansiedade mais severos”, conta.

No fim, a música não elimina a ansiedade — mas pode torná-la mais habitável.

Ela organiza o caos, desacelera o corpo e, por alguns minutos, oferece algo raro: a sensação de que tudo pode caber dentro de uma melodia.

Por Belita Lira, O Correio de Hoje