Partidos de Lula e Flávio buscam apoio do Centrão para disputa presidencial

Apesar de escolherem a neutralidade no plano nacional, políticos do Centrão são cortejados por PT e PL nos estados, onde Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro buscam construir pontes para fortalecer o próximo mandato presidencial. Os dois partidos que dividem as atenções na corrida ao Planalto terão candidaturas próprias em menos da metade das unidades da federação, numa tentativa de privilegiar alianças com cabeças de chapa de outras legendas. No plano regional, a estratégia das siglas é a mesma adotada há quatro anos, quando Lula derrotou Jair Bolsonaro.
Cinco siglas se tornaram o fiel da balança e são as mais cobiçadas nos estados: PSD, MDB, Republicanos, União Brasil e PP, estas duas últimas unidas em uma federação.
Representantes dessas legendas serão cabeça de chapa, com apoio petista ou bolsonarista, em mais de uma dezena de estados, sem que nenhuma tenha se comprometido a entrar nas coligações de Lula ou Flávio.
Ao buscar um novo mandato, o petista deve apoiar nove candidatos de partidos de centro, grande parte deles do PSD e do MDB, e cinco de PSB e PDT, siglas de centro-esquerda.
A renuncia à cabeça de chapa por petistas também ocorre em estados de peso. O partido será aliado, por exemplo, de Eduardo Paes (PSD) no Rio e de João Campos (PSB) em Pernambuco. No Rio Grande do Sul e no Paraná, apoiará nomes do PDT (Juliana Brizola e Requião Filho). Já no Pará, do MDB (Hana Ghassan).
Conflitos evitados
O deputado e coordenador das eleições estaduais do PT, Jilmar Tatto, diz que a estratégia é evitar conflitos regionais. “O critério é o apoio ao Lula e cuidar para não atrapalhar a campanha dele. A prioridade é ampliar os palanques do presidente.”.
Até o momento, o PT tem 11 candidaturas próprias, a maioria onde a sigla já governa o estado, quase todas no Nordeste, a exemplo de Jerônimo Rodrigues (Bahia), Elmano de Freitas (Ceará) e Rafael Fonteles (Piauí), que buscam a reeleição.
Em São Paulo e Minas, por outro lado, os petistas Fernando Haddad e Patrus Ananias começam atrás dos favoritos, mas garantem ao presidente um palanque próprio, justamente onde a apuração pesa mais. Ainda há indefinição em Goiás e Roraima.
No PL há mais negociações abertas, e a estratégia aparece com clareza nos maiores colégios eleitorais: dos dez estados com mais eleitores, o partido pode apoiar candidatos de fora em seis.
O presidente da sigla, Valdemar Costa Neto, tentou levar Tarcísio de Freitas para o PL e não conseguiu, mas o governador disputa a reeleição pelo Republicanos com apoio bolsonarista.
Em Minas, a legenda avalia desistir de nome próprio para se juntar ao União-PP em torno do ex-deputado Marcelo Aro (PP) ou apoiar a candidatura do senador Cleitinho Azevedo (Republicanos).
De olho em eleger mais deputados federais no Nordeste, o PL também estuda apoiar dois pré-candidatos do PSD, Eduardo Braide, no Maranhão, e Raquel Lyra, em Pernambuco — mesmo sabendo que nenhum dos dois vai subir no palanque de Flávio.
O deputado Mendonça Filho (PL-PE) disse que vai apoiar a reeleição de Lyra, mas ressaltou que o partido não deve entrar formalmente na coligação dela. “O partido não vai coligar, mas o meu apoio ela (Raquel Lyra) terá. Política é um fato local, as circunstâncias locais têm um peso muito grande em qualquer processo político. Não dá para buscar um caminho alternativo a essa realidade que estou dizendo.”, disse.
Também mirando composição em outro estado do Nordeste, o PL recuou da intenção de ter candidato a governador no Piauí e decidiu apoiar Joel Rodrigues (PP) para o cargo. Rodrigues é aliado do presidente do PP, Ciro Nogueira.
Estão encaminhados ainda os apoios a ACM Neto (União-BA), Lorenzo Pazolini (Republicanos-ES), Doutor Furlan (PSD-AP), Professora Dorinha Seabra (União-TO) e Celina Leão (PP-DF).
O PL tem hoje 12 pré-candidaturas próprias aos governos estaduais. Por outro lado, há alianças fechadas com a federação União-PP em cinco estados e apoio a candidatos do Republicanos em dois. O partido de Flávio também dará apoio a candidaturas a governador do PSDB, Podemos e PSD.
Na corrida presidencial, Lula deve manter apoio dos mesmos partidos de centro-esquerda que embarcaram em sua candidatura no último pleito, PSB e PDT. Já Flávio herda situação pior que a do pai, que em 2022 fez campanha com o PP e Republicanos.
Na segunda-feira (20), o diretório paulista da União-PP declarou apoio ao senador num evento na capital; na quarta (22), a direção nacional da federação avisou que ficará neutra na disputa presidencial.
A decisão, comunicada por Ciro Nogueira, vale ao menos para o primeiro turno e libera cada diretório estadual a fechar o acordo que quiser, inclusive com aliados de Lula. Resta ao PL a conversa com o Republicanos, que ainda discute sua posição.
Pesos diferentes
Para Geraldo Tadeu Monteiro, cientista político da Uerj, a polarização tem sido em grande parte responsável pela estratégia de buscar o alinhamento com o Centrão. “As eleições, em geral e em condições normais de temperatura e pressão, se vencem ao centro e, mais tarde, se governa ao centro. A questão de governabilidade é muito importante. Por outro lado, temos uma eleição muito polarizada em nível nacional e isso faz com que as pessoas procurem evitar ao máximo os atritos estaduais.”, explica Monteiro. “Então, sempre que for possível abrir mão de candidato e apoiar outro, você está agregando a um projeto político.”, ressaltou.
TRIBUNA DO NORTE
