Pesquisa detecta químicos tóxicos em vapes

Os cigarros eletrônicos, conhecidos como vapes e comercializados de forma ilegal no Brasil, podem conter substâncias tóxicas que representam risco à saúde. É o que indica um estudo conduzido pelo Instituto do Petróleo e dos Recursos Naturais (IPR), da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), com apoio do Instituto de Pesquisa Rosenfield.
A pesquisa aponta preocupação especialmente em relação aos jovens, que podem estar consumindo produtos cuja composição não é totalmente conhecida e que não passam por fiscalização adequada. A ausência de controle aumenta o risco de exposição a substâncias não declaradas ou em concentrações inadequadas.
Outro fator que contribui para esse cenário é a percepção de que os cigarros eletrônicos seriam menos prejudiciais que o cigarro convencional, o que pode levar à subestimação dos riscos. Esse entendimento é ainda mais problemático diante do fato de que esses produtos são irregulares e apresentam baixa padronização.
Para a realização do estudo, os pesquisadores seguiram diretrizes da Medicines and Healthcare Products Regulatory Agency (MHRA), órgão regulador do Reino Unido, já que o Brasil ainda não possui normas específicas detalhadas sobre a composição desses dispositivos.
Como resultado, foram identificadas duas substâncias consideradas perigosas em regulamentações internacionais, como no Reino Unido e nos Estados Unidos. Entre elas está o diacetil, composto utilizado para conferir sabor aos líquidos, e o acetato de vitamina E, empregado como espessante.
As amostras analisadas não foram produzidas no Brasil, mas correspondem aos líquidos utilizados em vapes vendidos ilegalmente no país. Ao todo, o estudo investigou a presença de 12 compostos orgânicos e metais, com foco em substâncias potencialmente tóxicas ou de interesse regulatório.
O diacetil está associado a danos pulmonares e, segundo a American Lung Association, pode causar bronquiolite obliterante, doença conhecida como “pulmão de pipoca”. Trata-se de uma condição irreversível, que pode exigir transplante em casos mais graves.
Já o acetato de vitamina E aparece com maior frequência em produtos que contêm tetrahidrocanabinol (THC), principal substância psicoativa da cannabis. Nos Estados Unidos, esse composto foi apontado como um dos principais responsáveis por lesões pulmonares relacionadas ao uso de cigarros eletrônicos, condição conhecida como Evali.
Além dessas substâncias, os pesquisadores também identificaram aldeídos como formaldeído, acetaldeído e acroleína. Esses compostos podem provocar irritação nas vias respiratórias e, em determinadas situações, apresentam potencial cancerígeno.
Mesmo a nicotina, quando presente em concentrações elevadas, pode aumentar o risco de dependência e causar efeitos cardiovasculares.
No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu a comercialização de cigarros eletrônicos em 2009. Apesar disso, esses produtos continuam sendo vendidos de forma ilegal. Em 2024, uma nova resolução da agência reforçou a proibição, incluindo o uso em ambientes fechados.
Dados recentes também indicam aumento do consumo entre jovens. O Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III), referente a 2024, mostra que adolescentes de 14 a 17 anos apresentam maior prevalência de uso de vapes do que adultos. Entre os mais velhos, o índice é menor.
Uma pesquisa da HSR Health, em parceria com o Observatório de Oncologia, aponta ainda que parte da população associa o uso de cigarros eletrônicos a um estilo moderno, o que pode contribuir para a adesão. No entanto, especialistas alertam que essa percepção não corresponde aos riscos envolvidos.
Segundo a Associação Médica Brasileira (AMB), o uso de um vape pode equivaler à exposição causada por dezenas de cigarros convencionais, reforçando o alerta sobre os impactos à saúde.
Por O Correio de Hoje
