RN registra disparada de pesquisas eleitorais e judicialização avança ainda na pré-campanha

Antes mesmo do início oficial da campanha de 2026, o Rio Grande do Norte já registra dois movimentos que chamam atenção: a disparada no número de pesquisas eleitorais e o avanço da judicialização envolvendo esses levantamentos.
Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que o RN mais que dobrou o número de pesquisas registradas nos cinco primeiros meses de 2026, em comparação com o mesmo período de 2022. Ao mesmo tempo, partidos políticos intensificaram a disputa nos tribunais para contestar resultados, metodologias e registros dos levantamentos.
Entre janeiro e maio de 2022, o estado teve 13 pesquisas registradas. No mesmo intervalo de 2026, o número saltou para 33, um crescimento de 153,85%. O avanço coloca o RN entre os estados nordestinos que mais ampliaram a realização de pesquisas na fase pré-eleitoral, atrás apenas da Paraíba, que registrou 32 pesquisas neste intervalo de tempo.
Entre os demais estados do Nordeste, Sergipe registrou crescimento de 150%, passando de 10 para 25 pesquisas. O Ceará saiu de sete para 20 levantamentos, alta de 185,71%. Pernambuco avançou de 12 para 17 pesquisas, enquanto Alagoas passou de seis para oito registros. A Bahia manteve estabilidade, repetindo os 12 levantamentos observados em 2022. Já o Maranhão foi o único estado analisado a apresentar redução, caindo de 24 para 17 pesquisas.
Judicialização ganha força
O cenário potiguar também chama atenção pelo avanço da judicialização em torno dos resultados apresentados pelas pesquisas eleitorais. Um levantamento realizado pelo NOVO Notícias junto ao Tribunal Regional Eleitoral do RN (TRE-RN) aponta que, entre janeiro e os primeiros 10 dias de junho deste ano, pelo menos 20 processos foram protocolados questionando pesquisas eleitorais divulgadas no estado.
As ações envolvem pedidos de suspensão de divulgação, questionamentos metodológicos, impugnações de registros e acesso aos dados utilizados pelos institutos. Isso tende a fazer com que a Justiça Eleitoral se torne um dos principais espaços de disputa da pré-campanha potiguar.
Os registros do TRE-RN mostram que o Republicanos lidera o número de ações ajuizadas, com nove processos. Em seguida aparecem o União Brasil, com cinco representações, e o PSD, com três.
Do outro lado, os institutos de pesquisa também passaram a conviver com um aumento das contestações. O PNH Pesquisa aparece como o instituto mais acionado judicialmente, figurando em seis processos. O Instituto Veritá foi alvo de três ações. Datavero e Seta aparecem em seguida, com duas contestações cada.
Os processos identificados no levantamento mostram que algumas disputas resultaram em liminares que suspenderam temporariamente pesquisas. Em outros casos, os levantamentos foram liberados após análise do mérito. Também há situações em que a Justiça determinou a retirada de conteúdos divulgados em redes sociais e aplicativos de mensagens por ausência de registro eleitoral ou descumprimento das exigências legais.
Além da tentativa de barrar divulgações, partidos passaram a buscar acesso a bancos de dados e sistemas internos dos institutos para verificar informações utilizadas na elaboração das pesquisas.
O movimento indica maior fiscalização sobre os levantamentos e evidencia o peso desses números nas estratégias dos grupos que disputarão as eleições de 2026.
Resultados que alimentam o debate
A multiplicação dos levantamentos também tem produzido situações que ampliam o debate sobre metodologia e credibilidade das pesquisas. No dia 29 de maio, por exemplo, três institutos divulgaram levantamentos para o Governo do RN com resultados bastante distintos.
Enquanto uma pesquisa apontou o ex-prefeito de Natal, Álvaro Dias (PL), na liderança, outra indicou o prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra (União Brasil), à frente da disputa. Já um terceiro levantamento colocou o secretário estadual da Fazenda, Cadu Xavier (PT), na primeira posição.
A divergência entre os resultados repercutiu no meio político e nas redes sociais, reforçando discussões sobre critérios metodológicos, margem de erro e interpretação dos dados eleitorais.
Institutos pedem mais rigor
Em meio ao aumento das disputas judiciais, a Associação dos Institutos de Pesquisas do Estado (Assinp/RN) divulgou nota pública defendendo o fortalecimento dos critérios técnicos e a ampliação da fiscalização eleitoral.
A entidade afirma que tem acompanhado o crescimento de práticas que considera prejudiciais à credibilidade das pesquisas científicas, citando a divulgação de levantamentos sem observância dos requisitos metodológicos e legais exigidos pela legislação eleitoral.
Segundo a Assinp/RN, pesquisas confiáveis exigem transparência na metodologia, definição clara da amostra, divulgação da margem de erro e registro formal junto à Justiça Eleitoral. A entidade também defendeu maior rigor na fiscalização e punição de eventuais irregularidades para preservar a confiança da população nos levantamentos de opinião pública.
Para o sociólogo Daniel Menezes, professor da Universidade Federal do RN (UFRN) e estudioso da área de comportamento eleitoral, o quadro observado atualmente representa um fenômeno relativamente novo no processo político brasileiro.
Segundo ele, candidatos e grupos políticos passaram a recorrer ao Judiciário com mais frequência quando não concordam com os resultados apresentados pelas pesquisas.
Na avaliação do pesquisador, o crescimento desse movimento exige uma atuação mais integrada entre tribunais eleitorais e órgãos de fiscalização, além da construção de critérios mais uniformes para análise dos registros e metodologias utilizadas pelos institutos.
Para Menezes, a falta de entendimento padronizado sobre exigências técnicas pode gerar interpretações diferentes entre magistrados e aumentar a insegurança jurídica em torno dos levantamentos.
Com a campanha se aproximando
Com a aproximação das convenções partidárias e o avanço da pré-campanha, a expectativa é de aumento tanto no número de pesquisas registradas quanto nas disputas judiciais envolvendo esses levantamentos.
A tendência é que os levantamentos continuem influenciando estratégias políticas, narrativas de campanha e posicionamentos partidários muito antes da abertura oficial do período eleitoral.
BOX – Pesquisas e disputas no RN
33 pesquisas registradas entre janeiro e maio de 2026
Crescimento de 153,85% em relação a 2022
20 ações judiciais envolvendo pesquisas em 2026
Republicanos lidera o número de representações: 9
União Brasil aparece em seguida: 5 ações
PNH Pesquisa é o instituto mais contestado: 6 processos
Instituto Veritá aparece em 3 ações judiciais
Maranhão foi o único estado do Nordeste a registrar queda no número de pesquisas
Alessandra Bernardo novo noticias
