Roda de conversa no Memorial debate relação histórica entre Clero e Legislativo

Postado em 29 de novembro de 2025

O Memorial do Legislativo Potiguar realizou, na tarde desta sexta-feira (28), a 2ª edição do projeto Memória Potiguar, com o tema “O Clero no Legislativo Potiguar”. O evento consistiu numa mesa-redonda, em que importantes personalidades potiguares discutiram a forte relação entre a Igreja e o Parlamento ao longo da formação política do Estado; bem como no lançamento da nova edição do livro “Padre Francisco de Brito Guerra, um Senador do Império”, de José Melquíades.  

A mesa foi composta pelo diretor-geral da Assembleia Legislativa, Augusto Viveiros; pelo ex-deputado estadual Kleber Bezerra; pelo padre João Medeiros; pelo jornalista Vicente Serejo; e ainda pelo arcebispo metropolitano de Natal, Dom João Cardoso; todos mediados pela jornalista Hilneth Correia.

Dentre os fatos resgatados pela pesquisa estão registros que evidenciam a ligação profunda entre as instituições, como, por exemplo, os fatos de que a primeira sede do Legislativo Potiguar funcionou na antiga Catedral de Natal; e de que o primeiro presidente da Casa foi o padre Francisco de Brito Guerra.

Segundo o jornalista Vicente Serejo, sua função no debate foi mostrar a bancada importante que a Igreja sempre teve ao longo da história do RN.

“Uma grande figura, por exemplo, foi Walfredo Gurgel, que era um monsenhor e foi governador do Estado”, ressaltou, acrescentando que a forte presença do clero na Política, no final do século XIX e início do século XX, deu-se principalmente “porque eles eram muito mais preparados culturalmente do que os políticos”.

“E, em razão desse preparo, eles começaram a trazer para o Legislativo a discussão dos problemas da comunidade, valendo-se de sua experiência através do lado social da Igreja”, concluiu.

Para o chefe do Memorial do Legislativo Potiguar, Aluísio Lacerda, a roda de conversa com o clero é de extrema importância para o entendimento da ligação histórica do segmento com a formação da Assembleia Legislativa do Estado.

“Para vocês terem noção da relevância dessa temática, há registros de que 51 padres passaram pelo Legislativo Potiguar ao longo de sua história”, frisou.

De acordo com o ex-deputado Kleber Bezerra, a formação do Legislativo com a participação intensa do clero aconteceu desde a colonização do País, “pois os padres eram os mais preparados culturalmente”.

“Todos esses clérigos que foram deputados eram professores – de Inglês, Português, Latim, Geografia, História. Assim, eles tinham uma liderança cultural, religiosa e rural. E, tudo isso somado, dava-lhes condições de estar à frente dos poderes do Estado”, disse.

Já conforme o Padre João Medeiros, “a Igreja sempre esteve ligada ao poder civil, porque ambos cuidam do ser humano”.

“A Igreja cuida da alma; o poder civil cuida do corpo em si. São as duas dimensões do ser humano: corpo e alma. Então há um ponto de encontro. E o objetivo é único: promover o ser humano. Em determinado momento, talvez, o poder civil não olhou plenamente para o ser humano, então a Igreja mergulhou, através de seus sacerdotes, na realidade civil, na tentativa de ser um subsídio do poder civil”, opinou.

O padre contou ainda que a Igreja realizou grandes ações, por vezes desconhecidas pela população.

“Por exemplo, ela foi pioneira na construção de asilos para os idosos; e na parte do ensino, muitas universidades se originaram a partir dos mosteiros e das catedrais, tanto na Europa quanto no Brasil. Aqui no RN, por exemplo, a Igreja contribuiu para o desenvolvimento econômico, com Dom Elizeu Simões Mendes, que começou todo o trabalho de irrigação e melhoramento dos vales úmidos do Apodi e do Açu”, finalizou.

Por fim, a diretora-geral da Presidência, Dulcinéa Brandão, destacou a preservação da história do Legislativo Potiguar através do seu Memorial.

“Este projeto de rodas de conversa tem o objetivo de contar toda a história do Legislativo, que foi instituído em 1835. Este momento de hoje é muito relevante para a nossa sociedade, contando inclusive com a presença do arcebispo metropolitano de Natal, Dom João Cardoso”, enfatizou.

De acordo com Dulcinéia Brandão, “o Rio Grande do Norte foi um dos estados onde o clero teve mais importância na formação cultural, na educação e na política”.

“Tanto é que 51 padres foram nossos deputados estaduais, durante o Império e a República, até o momento em que o Vaticano proibiu a participação do clero em questões políticas”, complementou.

Concluindo, a diretora afirmou que “este momento é muito importante para a ALRN como um todo, porque nós estamos resgatando e mostrando à sociedade potiguar toda a sua história”.

O projeto

O projeto “Memória Potiguar” tem como propósito recuperar episódios e personagens que ajudam a contar a história do Rio Grande do Norte a partir das particularidades da trajetória do Legislativo, reforçando a importância da preservação da memória institucional.

A primeira roda de conversa aconteceu em 31 de março, destacando a trajetória de Maria do Céu Fernandes, primeira deputada estadual do Brasil. A próxima edição do projeto ocorrerá no dia 9 de dezembro, abordando as 12 sedes em que a Assembleia Legislativa já se instalou – até chegar à Praça Sete de Setembro.