Uso indevido de canetas emagrecedoras amplia risco de pancreatite, alerta Anvisa

Por trás da popularização das chamadas “canetas emagrecedoras” – medicamentos injetáveis como Ozempic, Saxenda e Mounjaro – cresce um movimento silencioso de automedicação, uso estético e expectativas irreais sobre perda de peso.
Nesta semana, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu um alerta após registrar aumento nas notificações de pancreatite associadas a esses fármacos. No Brasil, seis mortes suspeitas estão sob investigação, além de mais de 200 casos de problemas no pâncreas relatados ao sistema de farmacovigilância.
O aviso inclui todos os medicamentos à base de semaglutida, liraglutida, tirzepatida e dulaglutida – princípios ativos originalmente indicados para diabetes tipo 2 e, em situações específicas, para obesidade. A agência reforça que qualquer uso fora das indicações aprovadas em bula é contraindicado, sobretudo quando o objetivo é emagrecimento rápido ou estético, sem acompanhamento médico.
A pancreatite, inflamação do pâncreas, pode se manifestar com dor abdominal intensa, náuseas, vômitos e alterações metabólicas graves. Em quadros mais severos, pode evoluir para falência de órgãos e até morte.
Embora esse risco já esteja descrito nas bulas, autoridades sanitárias brasileiras e internacionais – como a Agência Reguladora de Medicamentos e Produtos de Saúde do Reino Unido (MHRA) – chamaram atenção para casos raros, porém graves, incluindo pancreatite necrosante e fatal.
A Anvisa orienta que o tratamento seja interrompido imediatamente diante de suspeita de pancreatite e não retomado caso o diagnóstico seja confirmado.
Entre indicação médica e desejo estético
O alerta ocorre em um momento em que o culto à magreza extrema volta a ganhar força nas redes sociais, impulsionado por celebridades e influenciadores que exibem corpos cada vez mais esguios. Nesse cenário, medicamentos de uso controlado passaram a circular como atalhos para o emagrecimento.
É o que relata o estudante potiguar Mário Sérgio, de 24 anos, que recebeu prescrição médica após diagnóstico de obesidade grau 1 – mas ainda não iniciou o tratamento por orientação da gastroenterologista.
“Estou resolvendo o problema do refluxo para poder começar a usar, na verdade. Porque a gastroenterologista, quando eu recebi a indicação do médico endócrino, me recomendou que eu não usasse por enquanto por causa do meu refluxo, tava a grau B”.
Ele conta que refez uma endoscopia e aguarda liberação médica para iniciar o uso. Segundo Mário, a prescrição não veio de forma aleatória. “Quando o endócrino fez a prescrição, foi porque eu estava em obesidade de grau 1. Então, isso já, teoricamente, já teria indicação do uso para o tratamento da obesidade”.
Apesar disso, o estudante observa como a medicação tem sido utilizada fora dos critérios clínicos. Ele próprio intermediou o acesso da prima ao medicamento – mesmo sem indicação.
“Minha prima, ela não estava com sobrepeso. Mas ela disse que queria emagrecer, sentir melhor com o corpo e tal”. Ela acabou comprando as canetas e utilizou duas ou três unidades. O resultado foi uma perda de peso acentuada. “Ela ficou muito, muito magra”. Hoje, segundo Mário, ela mantém o peso após uma dose baixa de manutenção e três meses sem o medicamento.
Riscos que vão além da saúde do pâncreas
Para a nutricionista e professora universitária Eva Andrade, o emagrecimento acelerado provocado por esses medicamentos não se restringe à gordura corporal. “A gente tem visto até o formato ‘cabeça de Ozempic’, porque a gordura não é perdida no rosto, mas o resto do corpo perde muito peso. O medicamento atua no centro de saciedade, as pessoas se sentem mais cheias, causando um emagrecimento rápido. Mas não é perda de gordura somente, perde músculo também”.
Ela alerta que, a longo prazo, esse processo pode comprometer funções orgânicas. “A imunidade pode ser afetada”, explicou, destacando ainda o efeito rebote após a interrupção do uso. “Parou de tomar o Ozempic, o que acontece? Acaba a sensação de saciedade, vai voltar a sentir fome da mesma forma que sentia ou até mais, o que gera um aumento do peso.”
Para quem não tem indicação clínica, Eva defende abordagens sustentáveis: déficit calórico controlado, melhora da qualidade alimentar, aumento de fibras e prática regular de atividade física.
Obesidade é doença – e o tratamento precisa ser individualizado
Membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia no RN (SBEM-RN), a médica Liana Viana explica que a semaglutida pode ser indicada para obesidade e sobrepeso apenas quando há falha do tratamento conservador, com dieta e exercício. “O tratamento da obesidade deve ser individualizado porque se trata de uma doença complexa”.
Ela lembra que o medicamento retarda o trânsito gastrointestinal, o que pode agravar quadros como refluxo e constipação – exatamente o motivo pelo qual Mário Sérgio precisou adiar o início do uso.
“Além de agir na saciedade, o Ozempic retarda o trânsito gastrointestinal. Então, se há um paciente que já tem algum distúrbio gastrointestinal, como refluxo ou constipação, e inicia o uso do Ozempic, essas doenças podem piorar”.
Entre os efeitos adversos estão náuseas, vômitos, desidratação e pancreatite. A endocrinologista reforça que o medicamento não pode ser usado na gestação ou amamentação e deve ser aplicado apenas uma vez por semana, sempre com acompanhamento médico.
Outro ponto sensível é a retomada abrupta do tratamento após interrupção. Segundo especialistas, voltar diretamente a doses altas pode sobrecarregar o pâncreas, especialmente em pessoas com triglicerídeos elevados, histórico de pancreatite ou consumo frequente de álcool.
Impactos individuais e coletivos de canetas
Para a endocrinologista e professora da UFRN Reivla Marques, o uso das canetas para fins estéticos pode romper o equilíbrio básico entre risco e benefício. “Qualquer medicamento que se faça uso sem orientação médica vai mexer no princípio básico da relação de risco-benefício”.
Enquanto isso, laboratórios como Novo Nordisk e Eli Lilly afirmam que a pancreatite é um efeito adverso conhecido, ainda que incomum, e reforçam a necessidade de acompanhamento médico.
Autoridades britânicas também destacam que, embora os medicamentos sejam seguros para a maioria dos pacientes com prescrição, é fundamental reconhecer sintomas precoces de pancreatite, como dor abdominal persistente irradiando para as costas, náuseas e vômitos.
Os números ainda são considerados suspeitos e estão sob análise, mas o recado das autoridades é claro: as canetas não são soluções mágicas. São medicamentos potentes, com indicações precisas, riscos reais e efeitos que vão muito além da balança.
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