Vendas de veículos eletrificados dobram no Brasil no início de 2026 e aceleram disputa no setor

O Brasil registrou 100 mil emplacamentos de veículos eletrificados nos três primeiros meses de 2026, segundo dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). O volume representa quase o dobro das 54 mil unidades vendidas no mesmo período de 2025 e surpreendeu a entidade, indicando aceleração consistente da eletrificação no mercado nacional.
De acordo com o presidente da Anfavea, Igor Calvet, os eletrificados vêm se consolidando como tendência estrutural no país, com crescimento médio mensal de 15% nos últimos meses. O avanço também reflete maior participação da produção local, que respondeu por 42% dos emplacamentos no período, ante 23% no ano anterior.
O aumento da demanda ocorre em paralelo à intensificação da presença de montadoras chinesas no mercado brasileiro. Entre janeiro e o início de abril, 54,2 mil veículos importados vieram da China, crescimento de 68,9% na comparação anual. O país asiático passou a liderar as exportações de veículos ao Brasil, superando a Argentina, que historicamente ocupava a primeira posição.
Segundo Calvet, a entidade não faz distinção quanto à origem do capital, mas defende maior internalização da produção. “O que defendemos é que a chegada dos chineses não se dê apenas na linha de comercialização”, afirmou. Para o executivo, a instalação de plantas completas, com etapas como estamparia, soldagem e desenvolvimento local, é fundamental para sustentar a cadeia produtiva brasileira, que emprega cerca de 1,3 milhão de pessoas e responde por 20% do PIB industrial do setor automotivo.
O debate ocorre em meio ao fim, em janeiro, da isenção do imposto de importação para kits CKD e SKD de veículos eletrificados, modelo utilizado por fabricantes como a chinesa BYD em operações no país. A Anfavea trabalha com o cenário de que o benefício não será retomado, mas mantém posição contrária a eventuais mudanças no modelo produtivo vigente.
Além da disputa internacional, o setor acompanha discussões com o governo sobre competitividade e política industrial. O tema ganhou força após declarações de Antonio Filosa, presidente global da Stellantis, que defendeu mecanismos de equalização frente às fabricantes chinesas, em linha com medidas adotadas por Estados Unidos e Europa.
No campo tributário, a implementação do imposto seletivo a partir de 2027 é vista como um dos principais pontos de atenção. O tributo, criado pela reforma tributária, deverá incidir sobre veículos com maior impacto ambiental, mas ainda gera incertezas quanto aos critérios de aplicação e às alíquotas. “Há imprevisibilidade e insegurança no setor sobre o assunto”, afirmou Calvet.
Os dados mais recentes indicam aquecimento do mercado automotivo como um todo. Março registrou 269,4 mil veículos emplacados, alta de 45% em relação a fevereiro e o melhor desempenho para o mês desde 2013. No acumulado do primeiro trimestre, foram 625,1 mil unidades vendidas, avanço de 13,3% na comparação anual.
A produção nacional também avançou, com 264,1 mil veículos fabricados em março — o maior volume desde outubro de 2019. No trimestre, a produção somou 634,7 mil unidades, crescimento de 6% sobre o mesmo período de 2025.
Apesar dos resultados, a Anfavea mantém cautela quanto ao desempenho ao longo do ano, diante do cenário macroeconômico ainda restritivo, com taxa Selic em 14,75% ao ano, além de incertezas externas relacionadas ao preço do petróleo e à volatilidade cambial.
Por O Correio de Hoje
