Vorcaro revela pagamento para documentário sobre Lula por privilégios no governo, revela revista

Postado em 9 de outubro de 2026

Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, afirmou em relatos apresentados às autoridades que teria destinado dinheiro ao Instituto Lula e financiado a produção de um documentário sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em uma negociação que, segundo ele, envolvia a liberação de investimentos de fundos de pensão de estatais para a instituição financeira. As informações foram publicadas pela revista VEJA.

Segundo o relato de Vorcaro, a negociação foi intermediada pelo ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto e envolveu o então CEO do Master, Augusto Lima, além de pessoas ligadas ao ministro da Secretaria de Relações Institucionais, Alexandre Padilha. O banqueiro afirma que o acordo previa o pagamento de aproximadamente R$ 30 milhões em dinheiro vivo para despesas de um documentário sobre Lula gravado no exterior, além de outros valores destinados ao Instituto Lula.

O ex-banqueiro também relatou nos áudios a cobrança de uma comissão de 10% sobre os recursos que o Master conseguisse captar junto a fundos de previdência de servidores públicos.

O material foi incluído em uma proposta de delação encaminhada à Procuradoria-Geral da República (PGR) em junho de 2026. O órgão não deu prosseguimento ao caso, sob a justificativa de que não haveria provas dos pagamentos, que teriam sido realizados em espécie.

A defesa de Vorcaro, por sua vez, sustentou que existiriam mensagens, registros de saques e informações sobre as pessoas e os trajetos utilizados nas entregas do dinheiro.

Relato cita ex-tesoureiro do PT e documentário sobre Lula

De acordo com o anexo apresentado à PGR, a aproximação entre o Banco Master e o PT teria sido articulada por Augusto Lima, com a participação de integrantes do partido na Bahia. O primeiro contato teria ocorrido com João Vaccari Neto, que, conforme o relato de Vorcaro, teria condicionado o acesso aos fundos de pensão a pagamentos antecipados.

No documento, o banqueiro descreveu a suposta negociação:

“O meu então sócio, Augusto Lima, através dos caciques do PT da Bahia, se reuniu com João Vaccari Neto. Nesse primeiro encontro ficou aventado que, para que houvessem votos suficientes para o nosso credenciamento junto aos fundos de pensão do Banco do Brasil, Caixa Asset e Previ, deveríamos fazer os seguintes adiantamentos: um pagamento por fora, ou seja, por espécie, na ordem de aproximadamente 30 milhões de reais para cobrir despesas de um documentário no exterior que estava sendo gravado sobre o Lula, e pagamento de valores ao Instituto Lula”

O documentário mencionado é Lula, dirigido por Oliver Stone, que reúne depoimentos de amigos e aliados do presidente, entre eles o advogado Walfrido Warde.

Além dos valores relacionados ao filme e ao Instituto Lula, Vorcaro afirmou que Vaccari teria exigido uma comissão de 10% sobre os recursos captados pelo Master junto aos fundos de previdência da Caixa, do Banco do Brasil, da Petrobras e dos Correios.

Na avaliação apresentada pelo banqueiro, caso a operação tivesse sido concluída, os repasses ao grupo político poderiam chegar a R$ 1 bilhão, enquanto o banco obteria R$ 9 bilhões.

O audio revelado pela Revista Veja também trata do financiamento do documentário e da comparação com o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro, que teria recebido mais de R$ 60 milhões do banqueiro.

“Banco do Brasil a gente estruturou isso com ele (Vaccari). É… O Augusto adianta ali para o Okamotto do Instituto Lula… E aí tem o negócio do filme também. O cara (Vaccari) pede para colocar dinheiro no filme do Lula”

Ao comentar a diferença entre os dois financiamentos, Vorcaro teria afirmado:

“O filme do Lula eu coloquei acho que até mais (que o filme de Bolsonaro). Eu acho que dá até mais. Só que o do Lula foi por fora, foi errado. O do Flávio não foi, porque foi patrocínio, foi patrocínio normal”

Relato aponta participação de auxiliares de Alexandre Padilha

Na documentação, Vorcaro também cita Alexandre Padilha, então ministro da Secretaria de Relações Institucionais, o secretário-executivo da pasta, Olavo Noleto, e dois operadores que, conforme o relato, teriam atuado para aproximar o banco dos gestores dos fundos de pensão.

O banqueiro afirmou que, entre o fim de 2023 e o início de 2024, organizou uma equipe no Master para buscar negócios com fundos de previdência federais. Nesse processo, disse ter recebido propostas que classificou como cobranças de propina.

“No fim de 2023 e início de 2024, formei uma equipe interna no Banco Master para captação institucional junto a novos produtos financeiros através dos fundos de pensão do Governo Federal… Com isso, eu logo passei a receber propostas espúrias (“as mordidas”) de políticos e emissários desses”

Segundo Vorcaro, um operador identificado como Júlio, que teria acesso ao gabinete de Padilha no Palácio do Planalto, fez a aproximação com Olavo Noleto. Mensagens encontradas no celular do banqueiro pela Polícia Federal ajudariam a sustentar parte desse relato.

Em uma das conversas, o empresário Walfrido dos Mares Guia, ex-ministro de Lula e parceiro de Vorcaro em outros negócios, teria elogiado o contato entre os dois.

“Olavo me enviou mensagem falando que gostou muito de você”

Vorcaro também afirmou que esteve pessoalmente com Padilha no Planalto e participou de pelo menos dois jantares com o ministro enquanto tentava viabilizar operações com os fundos de pensão.

“Nesse dia, estavam também o assessor Olavo, Fernando, o primo desse Olavo, e o próprio Júlio. Nessa conversa, Padilha mais ouviu do que falou, mas afirmou que ‘o que eu tratasse com Olavo seria como se eu estivesse tratando com o próprio Padilha’”

O banqueiro disse ainda que, após o encontro, recebeu Júlio, Olavo e Fernando em sua residência para uma conversa reservada. Na ocasião, teria sido informado de que o acesso aos fundos dependeria do pagamento de comissões.

“Júlio, Olavo e seu primo Fernando foram em minha casa para uma conversa aberta: ‘só haveria um jeito de entrar na Previ, Petros e Postalis: mediante pagamento de propina também na ordem de 10% de tudo o que o banco captasse’”

Mensagens mostram tentativa de captar recursos

Conforme o áudio revelado pela Revista Veja, as conversas entre Vorcaro e Júlio registram tentativas de aproximação com dirigentes da Previ, da Petros e do Postalis, fundos de previdência ligados, respectivamente, ao Banco do Brasil, à Petrobras e aos Correios.

Em 8 de abril de 2024, o banqueiro cobrou informações sobre contatos com a Petros. A conversa teria começado com a seguinte mensagem:

“O e-mail que pediram Petros”

Júlio respondeu:

“Já repassei. Agora é o amigo com dever dele. Ontem estive com ele”

Vorcaro voltou a cobrar o andamento da operação:

“O da Petros já foi? Cobrando?”

O operador respondeu:

“Já sim”

Na sequência, o banqueiro insistiu na liberação dos investimentos e perguntou sobre o Postalis:

“Vamos pressionar pra boletar (liberar o investimento). Postalis evoluiu?”

Júlio respondeu que as tratativas continuavam e mencionou a expectativa de avançar com o Banco do Brasil:

“Evoluiu. Mandando e-mail também. Do BB essa semana resolve. Semana que vem reunião lá. Aí alinho contigo na sua agenda”

Vorcaro encerrou a sequência com uma nova cobrança:

“Vamos tentar concluir os que abrimos”

Naquele momento, o Master precisava ser incluído na chamada “lista exaustiva”, documento oficial que relaciona as instituições financeiras autorizadas a receber recursos dos fundos de previdência estatais.

A inclusão ocorreu em 29 de abril de 2024, conforme a reportagem. Augusto Lima comunicou a novidade ao sócio:

“Entramos na lista exaustiva. Resolvido”

Vorcaro respondeu:

“Você é foda”

Operador teria cobrado R$ 500 mil após autorização

Em mensagens de Júlio, reveladas pela Revista Veja, indicariam que ele solicitou R$ 500 mil no mesmo dia em que o Master passou a constar na lista de instituições autorizadas. O valor seria um adiantamento da comissão negociada.

Após o pagamento, Vorcaro teria cobrado resultados concretos da articulação, indicando que esperava captar ao menos R$ 500 milhões junto aos fundos.

“Quero ver agora você virar uma boleta de verdade (o que no caso significaria obter junto aos fundos pelo menos 500 milhões de reais para o Master)”

Júlio respondeu:

“Pode deixar. É empenho de vida, Daniel, isso”

Ao justificar a solicitação do dinheiro, o operador teria escrito:

“Daniel, desculpa tá apertando, mas é que você é a única pessoa que eu possa falar isso!! Preciso ver se você consegue me ajudar… Quero ir pro jantar tranquilo”

O jantar citado nas mensagens teria ocorrido dois dias depois, na casa de Vorcaro, com a presença de Padilha, Olavo Noleto e Júlio.

Apesar da autorização para operar nos fundos, o Master não conseguiu avançar como pretendia. Em julho de 2024, uma tentativa de investir R$ 500 milhões em letras financeiras do banco na Caixa Econômica Federal foi divulgada pela imprensa. A reportagem de O Globo, publicada em 12 de julho daquele ano, informou que dois gerentes da Caixa haviam sido afastados após emitir parecer contrário à operação.

Vorcaro atribuiu a esse episódio a interrupção das negociações com os fundos federais.

“Com as matérias difundidas na imprensa em julho de 2024 sobre a suposta perda de cargo de gestores da Caixa Asset que teriam sido contrários ao investimento em LFs do Banco Master, o grupo de Padilha e os dirigentes da Petros, Postalis e BB preferiram segurar a decisão de fazer o investimento”

Vorcaro relata novos pagamentos e tentativa de reunião com Lula

Mesmo com o recuo nas operações federais, o banqueiro afirmou que manteve contato com os interlocutores ligados ao grupo de Padilha e conseguiu captar recursos de fundos municipais nos quais o operador teria influência.

Segundo o relato, a mesma comissão de 10% teria sido aplicada nessas operações, gerando pelo menos R$ 6 milhões para o ministro e seus operadores, conforme a versão apresentada por Vorcaro.

Em outubro de 2024, o banqueiro teria organizado outro jantar com Padilha, Olavo Noleto e os demais interlocutores. Na véspera do encontro, Júlio enviou uma mensagem com os detalhes:

“Daniel, acertado!!!! Padilha e Olavo amanhã, às 22 horas, um jantar contigo em bsb (sic)… Vai 5 pessoas… Padilha, Olavo, o Fernando (primo), um assessor do Padilha e eu”

No dia seguinte, as conversas passaram a mencionar a possibilidade de uma reunião entre Vorcaro e Lula. Júlio teria escrito:

“Daniel, liga pro Olavo… O PR vai te receber…”

Em outra mensagem, o operador insistiu na articulação:

“Daniel, tô insistindo aqui porque já conversaram com PR e ele gostou da conversa! Olavo pediu pra retornar para ele para fazer agenda contigo”

Como Vorcaro não teria respondido imediatamente, Júlio voltou a cobrar uma posição:

“Daniel, não esquece do Olavo. Ele vai te passar informações. E fazer agenda. Porque semana que vem é sua reunião importante”

As mensagens reveladas, porém, não comprovam que o encontro entre Lula e Vorcaro tenha ocorrido.

A única reunião confirmada no Palácio do Planalto, conforme o texto publicado pela VEJA, foi realizada em 4 de dezembro de 2024, fora da agenda oficial. O encontro teria sido articulado pelo advogado Walfrido Warde com Marco Aurélio Santana, conhecido como Marcola, então chefe de gabinete da Presidência, e teve como pauta a situação do Banco Master junto ao Banco Central.

Negociações fracassaram em 2025

Apesar das tentativas, Vorcaro afirmou que não conseguiu concretizar os investimentos nos fundos federais. Em junho de 2025, o banqueiro teria demonstrado insatisfação com a demora para obter resultados.

“Estamos já há mais de 12 meses tentando uma boleta (investimento). Não dá pra mobilizar a equipe para novos temas sem concluir nenhum”

Em seguida, questionou:

“Falhou de novo o negócio?”

O operador teria atribuído as dificuldades à divulgação de informações negativas sobre o banco. No início de agosto, após emprestar um avião para que Júlio tentasse avançar nas negociações, Vorcaro decidiu encerrar a relação caso não houvesse resultados.

“Cara, essa é a última chance. Se não entrar nada até final da semana que vem, eu gostaria que você encerrasse o trabalho. Já consumiu muito tempo, dinheiro e recursos nossos”

Júlio respondeu:

“Concordo!”

Vorcaro concluiu:

“Sexta que vem — não entrando — vida que segue. Lá na frente bolamos outra coisa juntos”

Citados negam envolvimento

Procurado pela reportagem, Lula afirmou que “jamais solicitou ou recebeu qualquer vantagem financeira nem autorizou terceiros a receber recursos de Vorcaro em seu nome”.

Olavo Noleto negou ter qualquer relação com o banqueiro ou ter recebido dinheiro dele. Alexandre Padilha também negou relação com Vorcaro. Os demais citados não haviam se manifestado até o fechamento da reportagem.

Ainda conforme a publicação, Vorcaro afirmou ter apresentado às autoridades conversas de WhatsApp, registros de entrada no Palácio do Planalto, e-mails, atas de reuniões nos fundos, comprovantes de pagamentos e dados de voos que, na avaliação dele, sustentariam as acusações. O banqueiro também teria incluído no material relatos sobre supostos pagamentos ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e a integrantes do Judiciário.

A primeira tentativa de delação de Vorcaro não avançou após questionamentos sobre a omissão de informações aos investigadores. Uma segunda proposta também foi descartada. Atualmente, o ex-banqueiro trabalha em uma terceira tentativa de acordo de colaboração, segundo a reportagem.

98FM