Dívidas de empresas do RN somam R$ 2,03 bilhões em junho, aponta Serasa

O volume financeiro de dívidas negativadas no Rio Grande do Norte no mês de junho chegou a R$ 2,03 bilhões, o maior do semestre, de acordo com dados da Serasa Experian. O número de empresas endividadas atingiu o patamar de 92.167 no estado. Em média, cada empresa inadimplente acumulou 6,2 contas em atraso, com dívida média no valor de R$ 22,08 mil por CNPJ e tíquete médio (valor total das dívidas dividido pela quantidade de dívidas) de R$ 3,5 mil.
O número de empresas inadimplentes no RN cresceu 3,5% no primeiro semestre, saindo de 89.020 em janeiro para 92.167 em junho. Dentre todas os negócios endividados no sexto mês do ano, o levantamento mostra que 88.194 são micro e pequenas empresas, o equivalente a 95,6% do total.
Em uma comparação por estados do Nordeste, o RN ocupou, em junho, a sexta posição no ranking de empresas (de todos os portes) inadimplentes (a Bahia lidera, com 332.416). Quando se leva em conta apenas as micro e pequenas empresas, o estado passa para a quinta posição (neste recorte, novamente a Bahia lidera o ranking, com 318.291 empresas endividadas).
No país, a inadimplência das empresas superou 9,1 milhões de CNPJs, maior marco da série histórica, iniciada em 2016. Os micro e pequenos negócios também foram os mais afetados (8,6 milhões, ou 94,5%).
No mês, o volume financeiro de dívidas negativadas chegou a R$ 232,9 bilhões no Brasil. Em média, cada empresa inadimplente acumulou 7,3 contas em atraso, com dívida média de R$ 25.508,96 por CNPJ e tíquete médio de R$ 3.515,77.
Para João Hélio Cavalcanti, diretor-técnico do Sebrae/RN, a inadimplência é um sinal de alerta para a saúde financeira das micro e pequenas empresas e, consequentemente, para a economia do RN.
“Quando uma empresa acumula dívidas, perde capacidade de investir, de comprar insumos, de manter estoques e, principalmente, de planejar o crescimento do negócio. Em situações mais graves, essa dificuldade pode comprometer a própria continuidade da empresa e afetar a manutenção dos postos de trabalho”, pontua.
Luciano Kleiber, diretor de Inovação e Competitividade da Fecomércio-RN, explica que as empresas de pequeno porte estão mais suscetíveis à inadimplência, dentre outros aspectos, por conta de uma maior dificuldade no acesso a crédito e financiamento. Segundo ele, o alto número de pequenos negócios inadimplentes já é esperado, uma vez que o segmento responde por 90% das empresas do estado.
O economista Helder Cavalcanti explica que as pequenas empresas trabalham, normalmente, com margem financeira muito estreita, têm menos capital de giro, menor reserva para enfrentar imprevistos e depende muito mais do faturamento do mês para pagar as contas do próprio mês.
“Quando as vendas diminuem, um cliente atrasa ou os custos aumentam, rapidamente surge um problema de caixa. Outro fator importante é o custo do crédito. Com juros ainda bastante elevados, recorrer a empréstimos, cheque especial empresarial ou cartão para cobrir despesas pode resolver o problema de hoje, mas criar uma dificuldade maior amanhã. A dívida vai crescendo e passa a consumir parte importante do faturamento”, aponta Helder Cavalcanti.
Outras fatores, segundo ele, envolvem questões de gestão. “No RN, a inadimplência das empresas desse porte ganha importância porque temos uma economia com forte presença de micro e pequenos negócios nos setores de comércio e serviços, atividades muito sensíveis ao comportamento do consumidor”, explica o economista.
Diagnóstico
Um passo importante para reverter o quadro, segundo João Hélio, do Sebare/RN, é um diagnóstico da situação financeira. “É preciso levantar todas as dívidas, identificar quais têm maior custo financeiro e separar as despesas essenciais para a manutenção da operação daquelas que podem ser reduzidas ou adiadas. Nesse cenário, a gestão financeira passa a ser ainda mais estratégica”, ensina.
De acordo com Luciano Kleiber, a busca por crédito com linhas de incentivo pode ajudar a reverter o problema. “Essas empresas podem buscar microcrédito junto ao Banco do Nordeste ou a agências de fomento. Também é possível negociar com fintechs e bancos pequenos, para que se troque uma dívida alta por uma menor. Por exemplo: uma taxa de antecipação de recebido a 2% ao mês pode ser reduzida com a busca por crédito de capital de giro no BNB, a 0,9%/mês”, detalha.
Conforme o Serasa, o Sudeste concentrou o maior volume de empresas inadimplentes em junho de 2026, com destaque para SP (3.126.658), seguido por MG (907.558) e RJ (874.385). Do total de empresas negativadas em junho, 55,7% pertenciam ao setor de “Serviços”, “Comércio” (32,2%) e “Indústria” (8,0%). Os 8,6 milhões de CNPJs de micro e pequenas empresas negativados em junho concentraram 59,7 milhões de dívidas, que somaram R$ 201,4 bilhões.
“O cenário, de um modo geral, exige cautela. Embora tenha havido cortes na Selic, as condições financeiras seguem restritivas e o mercado continua trabalhando com uma perspectiva de juros elevados por um período prolongado. Ao mesmo tempo, a atividade econômica vem mostrando uma trajetória de desaceleração, o que pode limitar a recuperação das receitas das empresas”, explicou Camila Abdelmalack, economista-chefe da Serasa Experian.
Tribuna do Norte
