Lula evita acirrar tensão com Milei e tenta conter atrito com os EUA

O governo brasileiro decidiu adotar uma estratégia de contenção diante dos reiterados ataques do presidente da Argentina, Javier Milei, a Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A avaliação do Palácio do Planalto é de que responder às provocações seria cair em uma armadilha narrativa, desgastando desnecessariamente a imagem de Lula no cenário internacional.
A decisão de ignorar Milei está inserida em um contexto mais amplo, que envolve também a relação do Brasil com os Estados Unidos e o governo de Donald Trump.
A equipe de Lula entende que qualquer tipo de resposta ao presidente argentino deve ficar nas mãos da diplomacia brasileira, especialmente do chanceler Mauro Vieira, que concedeu entrevista no fim de semana rebatendo os ataques de Milei e afirmando que eles precisam cessar.
A lógica da estratégia é desacoplar a atuação política de Lula do embate com Milei. O objetivo é preservar a imagem de Lula como um líder respeitado no cenário internacional, que mantém diálogo direto com Donald Trump, ao mesmo tempo em que se evita alimentar o confronto com o presidente argentino.
Auxiliares de Lula avaliam que Milei utiliza a figura do presidente brasileiro para obter projeção internacional, e que a melhor resposta é esvaziar essa estratégia, deixando-o “falando sozinho”.
Dentro do governo brasileiro, há um entendimento de que as relações diplomáticas e comerciais entre Brasil e Argentina estão preservadas. O que existe, na avaliação dos auxiliares de Lula, é um jogo político de Milei.
EUA estão à disposição para conversar
Os Estados Unidos responderam nesta segunda-feira ao pedido de consulta do Brasil à Organização Mundial do Comércio (OMC) para discutir as duas sobretaxas impostas aos produtos brasileiros importados pelo país.
Em documento enviado ao órgão, os EUA afirmaram que “aceitam o pedido do Brasil para iniciar consultas” e que os representantes estão “à disposição para conversar com os representantes de sua missão em uma data que seja conveniente para ambas as partes para a realização das consultas”.
Também hoje, a China pediu para participar da discussão tarifária entre EUA e Brasil, afirmando que “possui um interesse comercial substancial nessas consultas”. No documento, o país diz que as medidas podem afetar também as exportações chinesas, já que as discussões podem afetar as condições de concorrência de seus produtos no mercado americano.
“A China, portanto, solicita respeitosamente que lhe seja permitido participar das consultas nesta controvérsia”, diz trecho de outro documento vinculado à discussão.
A resposta americana realizada hoje responde à queixa realizada pelo Brasil à OMC, formalizada no fim do mês passado. Em 27 de julho, o Brasil afirmou que as medidas adotadas pelos americanos violavam compromissos assumidos pelo país no sistema multilateral de comércio e representam uma tentativa de impor sanções de forma unilateral.
A iniciativa, datada de 27 de julho pelo país, questiona as duas sobretaxas anunciadas no mês passado pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), ambas tomadas com base na Seção 301 da legislação comercial americana: a primeira sobre alíquota adicional de 25% relacionada à investigação sobre práticas comerciais brasileiras. A segunda sobre a taxa de 12,5% vinculada à apuração sobre supostas falhas do Brasil no combate à importação de produtos produzidos com trabalho forçado.
Somadas, as medidas elevam a tributação sobre parte dos produtos brasileiros exportados ao mercado americano.
Na manifestação enviada à OMC, o Brasil argumenta que Washington desrespeitou o princípio da nação mais favorecida, um dos pilares do comércio internacional, ao aplicar tarifas específicas contra produtos brasileiros sem estender o mesmo tratamento a outros membros da organização. Também sustenta que os Estados Unidos passaram a cobrar tarifas superiores aos limites consolidados junto à OMC.
Outro ponto da reclamação é a alegação de que os EUA recorreram a medidas unilaterais para responder a supostas violações comerciais, em vez de utilizar o mecanismo de solução de controvérsias previsto pela própria organização.
Tribuna do Norte
