Maioria dos grandes partidos não adota filtro contra filiação de integrantes do crime organizado, aponta levantamento

Postado em 15 de junho de 2026

Apesar dos alertas de órgãos de segurança sobre o avanço do crime organizado na política brasileira, a maioria dos principais partidos do país não possui mecanismos específicos para impedir a filiação de integrantes de facções criminosas antes do registro de candidaturas para as eleições de 2026.

Levantamento realizado pela Folha, e divulgado em reportagem da Folha de S.Paulo, com base nos estatutos e normas internas dos oito partidos com maior representação na Câmara dos Deputados — PL, PT, União Brasil, PSD, PP, Republicanos, MDB e Podemos — mostra que apenas o MDB aprovou uma regra específica para barrar a filiação e a candidatura de pessoas ligadas a organizações criminosas.

A norma, publicada em março, proíbe o ingresso de indivíduos vinculados a facções, milícias, grupos paramilitares ou organizações semelhantes. Além disso, determina a verificação de antecedentes, origem de recursos e possíveis vínculos dos filiados e pré-candidatos.

Regras variam entre os partidos

Nos demais partidos, as regras se concentram em punições posteriores. O PT e o Republicanos, por exemplo, preveem expulsão após condenação criminal definitiva. Já PP e Podemos incluem sanções relacionadas a casos de improbidade administrativa.

Por outro lado, PSD e União Brasil seguem apenas as exigências previstas na legislação eleitoral. O PL prevê a possibilidade de impugnação da filiação por conduta considerada incompatível com os princípios da legenda, sem estabelecer critérios específicos.

Alertas sobre influência criminosa

Em relatório divulgado no fim de 2025, a Agência Brasileira de Inteligência apontou que a aproximação entre grupos criminosos e agentes políticos representa um dos principais riscos institucionais para o processo eleitoral brasileiro.

Segundo o documento, a crescente influência de facções e milícias demonstra capacidade de interferência na política e nas eleições, ampliando preocupações sobre o financiamento de campanhas e a ocupação de cargos públicos.

Casos investigados

O debate ganhou força após investigações que apontaram possíveis vínculos entre políticos e organizações criminosas em diferentes estados.

No Rio de Janeiro, uma apuração da Polícia Federal citou o ex-deputado estadual TH Joias, suspeito de ligação com o Comando Vermelho. Segundo o levantamento, ele recebeu recursos partidários para a campanha de 2022 enquanto ainda recorria de uma condenação por tráfico de drogas e associação para o tráfico.

Em São Paulo, operações conduzidas pela Polícia Civil de São Paulo e pelo Ministério Público de São Paulo investigaram políticos suspeitos de ligação com o Primeiro Comando da Capital, em casos relacionados a fraudes em licitações, corrupção, lavagem de dinheiro e peculato.

Especialistas ouvidos pela reportagem da Folha destacam que a preocupação aumenta em cargos legislativos devido ao acesso de parlamentares a recursos públicos, como emendas parlamentares, cuja fiscalização e rastreabilidade ainda são alvo de questionamentos judiciais e institucionais.