Mais de 30% municípios do RN dependem apenas de transferências para sobreviver

Postado em 14 de abril de 2026

Pelo menos 55 municípios do Rio Grande do Norte têm dependência extrema de repasses estaduais e federais, com mais de 90% das receitas oriundas de transferências externas. Em alguns casos, esses recursos chegam a representar até 97% da arrecadação total das prefeituras.

Os dados são das Declarações de Contas Anuais (DCA) enviadas pelos municípios à Secretaria do Tesouro Nacional (STN), com base em informações consolidadas de 2024. O balanço de 2025 ainda não foi finalizado.

O levantamento aponta que mais de 120 cidades potiguares apresentam dependência superior a 80% de transferências externas. Em média, cerca de 85% das receitas municipais têm origem em transferências da União e do Estado.

Apenas três municípios — Natal, Mossoró e São Gonçalo do Amarante — apresentam maior capacidade de arrecadação própria, com até 60% das receitas provenientes de tributos locais.
De acordo com o estudo, o município mais dependente é São Pedro, no Alto Oeste potiguar, com 97,4% dos recursos frutos de transferências. Para cada 1 real arrecadado em impostos, a cidade recebeu outros 37 reais em recursos federais ou estaduais.

No âmbito nacional, 2.190 municípios apresentam o mesmo cenário, o equivalente a cerca de 40% das cidades brasileiras. As principais transferências constitucionais são os denominados Fundo de Participação dos Municípios (FPM) e Fundo de Participação dos Estados (FPE), constituídos de parcelas arrecadadas do Imposto de Renda (IR) e do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). Além disso, há divisão do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), que é feita pelos governos estaduais.

O presidente da Federação dos Municípios do Rio Grande do Norte, José Augusto de Freitas Rêgo, afirmou que a situação está relacionada à distribuição dos recursos tributários no país. “A divisão desse ‘bolo’ historicamente favorece a União Federal e desprestigia os Municípios. A primeira mudança, portanto, é a revisão dessa injusta repartição”, reclamou.

Dados de estudo da Fundação Getulio Vargas indicam que a arrecadação de impostos representa apenas 5,17% das receitas no Nordeste. Em outras regiões, como Sudeste, Sul e Norte, esse percentual chega a cerca de 9,30%. Além disso, a cobrança de taxas municipais responde por apenas 0,34% das receitas na região.

A pesquisa sugere alternativas para melhorar a arrecadação. Entre elas, o envio de lembretes aos contribuintes para evitar atrasos no pagamento de tributos e a realização de auditorias aleatórias. As medidas têm impacto limitado, mas são consideradas de baixo custo e aplicáveis à gestão municipal.

Ainda de acordo com o presidente da Femurn, a perda de recursos do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) também tem pressionado prefeituras a buscar melhorias na cobrança de tributos locais. José Augusto de Freitas Rêgo defende a revisão do modelo de repartição e a adoção de medidas como combate à sonegação, modernização administrativa e preparação para a transição da reforma tributária entre 2026 e 2033.

“Este novo momento exigirá forte modernização e digitalização das administrações tributárias locais. A Femurn está tentando atuar em todas essas frentes, inclusive apoiando os Municípios diante de nossos novos desafios”, detalhou.

Evento

A Confederação Nacional de Municípios (CNM) promove evento Conexão CNM no Rio Grande do Norte. A iniciativa visa a qualificar os gestores municipais potiguares por meio de cursos presenciais. As atividades ocorrerão nas cidades de Natal e Mossoró. O projeto conta com a parceria da Federação dos Municípios do Rio Grande do Norte (Femurn).

O treinamento na capital potiguar acontece nesta segunda-feira (13). A edição de Mossoró será realizada no dia 14 de abril. A participação é gratuita para os municípios filiados que mantêm suas contribuições em dia. Os cursos ocorrerão em um único dia para facilitar o acesso.

Em Natal, os participantes estudarão a proteção da receita durante a transição administrativa. O foco desse módulo será o papel do Imposto sobre Serviços (ISS). O programa também abordará o funcionamento prático da mesa diretora e das comissões. A gestão municipal da política de segurança alimentar e nutricional fechará o cronograma de aulas nas duas cidades.

Segundo o presidente da Femurn, o evento ganha relevância diante das dificuldades enfrentadas pelas prefeituras com os controles internos. “Precisamos preparar os municípios para a fase de transição da Reforma Tributária [do Governo Federal]. É algo grave e complexo. O cenário futuro será radicalmente redesenhado por tal transição. Precisamos de muitos encontros sobre o tema e de muitas horas de treinamento e qualificação para técnicos e gestores”, encerrou.

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