Pesquisa da UFRN usa semente do tamarindo no controle da glicemia

Postado em 7 de maio de 2026

Os alimentos ricos em carboidratos fazem parte do dia a dia da maioria dos brasileiros. No entanto, para pessoas com Diabetes Mellitus, eles representam um desafio constante: o aumento rápido da glicose no sangue após as refeições. É nesse contexto, que um estudo, desenvolvido na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), apresenta um composto natural extraído da semente de tamarindo como possível aliado no controle da hiperglicemia.

A pesquisa, produto de mestrado da aluna Larissa Souza, desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Nutrição (Ppgnut/UFRN) sob orientação dos professores Ana Heloneida, do Departamento de Nutrição (Dnut/UFRN), e Davi Serradella, do Instituto de Química (IQ/UFRN), demonstrou que o inibidor de tripsina (TTI) é capaz de reduzir a atividade da α-amilase, enzima responsável pela quebra de carboidratos em açúcares simples.

Para chegar a esse resultado, os pesquisadores combinaram ensaios laboratoriais com simulações computacionais de alta complexidade, realizadas com apoio do Núcleo de Processamento de Alto Desempenho (NPAD) da UFRN, fundamental para a modelagem molecular envolvida no estudo.

O interesse por alternativas naturais no controle da glicemia cresce à medida que a diabetes se consolida como um dos principais problemas de saúde pública no país e no mundo. Nesse cenário, compostos bioativos de origem vegetal ganham espaço por apresentarem potencial terapêutico associado a menor agressividade ao organismo, além de possibilidades de aplicação preventiva e complementar às terapias convencionais.

“Esses resultados revelam o potencial funcional de compostos naturais aplicados à nutrição e à saúde”, afirma a professora Ana Heloneida de Araujo Morais, líder do grupo de pesquisa Nutrição e Substâncias Bioativas (NutriSBioativoS), da UFRN. O grupo, que investiga proteínas e peptídeos bioativos de origem vegetal, compartilha parte de suas atividades e pesquisas no perfil do Instagram @nutrisbioativos.

Nos testes realizados, tanto a proteína original extraída da semente de tamarindo quanto os pequenos fragmentos dela apresentaram capacidade de se ligar à α-amilase, reduzindo sua atividade em mais de 37%. A interação entre as moléculas foi observada por meio de modelagem molecular in silico — simulações feitas por meio de computadores —, que permitiu visualizar, em nível detalhado, como esses compostos se “encaixam” na enzima, interferindo em sua função digestiva.

Essas análises computacionais foram complementadas por ensaios in vitro — realizados fora de um organismo vivo — de atividade enzimática, reforçando a confiabilidade dos resultados. De acordo com a pesquisadora, os dados obtidos dialogam com estudos anteriores do grupo, que já indicavam efeitos sacietogênicos, anti-inflamatórios e impactos positivos sobre parâmetros metabólicos, como a glicemia, em modelos experimentais animais.

Implicações do estudo
As implicações do estudo são amplas. Do ponto de vista social, a pesquisa contribui para o desenvolvimento de estratégias voltadas à prevenção e ao controle de distúrbios metabólicos, como obesidade e diabetes. No campo científico, fortalece o conhecimento sobre a bioatividade de proteínas vegetais. Já sob a perspectiva tecnológica, os resultados abrem caminho para o desenvolvimento futuro de alimentos funcionais, nutracêuticos e aplicações biotecnológicas, ainda que não existam produtos consolidados no mercado.

O suporte do NPAD foi essencial para o avanço dos estudos in silico, ao oferecer infraestrutura de supercomputação, colaboração técnica e recursos computacionais de alto desempenho. Esse apoio permitiu acelerar as análises, ampliar a robustez dos resultados e fortalecer parcerias com pesquisadores de outras áreas, como a Química.

Para os próximos anos, o estudo aponta novos caminhos. Entre eles, estão a investigação mais aprofundada dos mecanismos moleculares de ação, a avaliação de segurança e eficácia em modelos mais complexos, o desenvolvimento de sistemas de nanoencapsulação e a exploração de possíveis aplicações clínicas e tecnológicas dos compostos estudados.

Com a pesquisa, a semente de um fruto amplamente conhecido na cultura alimentar brasileira ganha protagonismo no campo científico, revelando como a combinação entre biodiversidade, ciência e tecnologia pode gerar soluções promissoras para desafios contemporâneos da saúde pública.

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