Procurador da República aponta indícios de fraude em pesquisas que colocaram Álvaro Dias na liderança no RN

Parecer identifica irregularidades em levantamentos eleitorais e pede apuração criminal dos responsáveis
Um parecer do Ministério Público Eleitoral aponta indícios de execução fraudulenta em pesquisas eleitorais realizadas no Rio Grande do Norte. Assinado pelo procurador Kleber Martins de Araújo em 28 de agosto, o documento afirma que os fatos ultrapassam a esfera cível eleitoral e podem configurar, em tese, crimes previstos na legislação eleitoral. A manifestação pede o encaminhamento de notícia-crime ao procurador regional eleitoral para adoção das providências criminais cabíveis.
O principal caso analisado é o da pesquisa RN-08092/2026, realizada pelo Instituto MÉDIA e contratada e veiculada por um grupo de comunicação. Registrada com 2 mil entrevistas em 85 municípios, a pesquisa foi divulgada em 9 de julho com Álvaro Dias em primeiro lugar, com 32,1% das intenções de voto, contra 27,5% de Allyson Bezerra. Ao analisar os microdados entregues pela própria empresa por determinação judicial, o procurador identificou seis indícios objetivos de execução fraudulenta. Entre as irregularidades apontadas estão entrevistas realizadas antes do período de coleta oficialmente registrado, inconsistências nas informações de localização, problemas nos registros de controle de qualidade e divergências nos dados apresentados pela empresa.
Entre os nomes que aparecem no centro das apurações está Thales da Silva Vale, um dos sócios-administradores do Instituto MÉDIA e ex-assessor de Álvaro Dias durante sua gestão na Prefeitura de Natal. O vínculo profissional anterior é apresentado pelo Ministério Público como uma das circunstâncias que devem ser analisadas em conjunto com os demais elementos relacionados aos responsáveis pelos levantamentos questionados.
Outro nome citado é o do estatístico responsável tecnicamente pela pesquisa RN-08092/2026. O parecer registra que ele foi suspenso por 12 meses pelo conselho profissional da categoria em 2023 e que respondeu, em uma única campanha, por 937 pesquisas. O histórico volta a ganhar relevância no atual episódio porque o estatístico e o sócio do Instituto MÉDIA aparecem associados a levantamentos que integram o padrão de irregularidades identificado pelo Ministério Público Eleitoral.
O parecer também analisa a pesquisa RN-09520/2026, realizada por outra empresa do setor, que igualmente colocou Álvaro Dias à frente de Allyson Bezerra. Nesse caso, o Ministério Público identificou concentração considerada inverossímil das entrevistas, divergências entre entrevistadores declarados e códigos existentes na base, ausência de metadados de coleta e inconsistências no registro profissional da estatística. O documento aponta ainda coincidências entre as equipes de campo das duas empresas, além de coincidência de endereço comercial e da presença dos mesmos responsáveis durante diligências.
A dimensão das suspeitas aparece no levantamento transversal realizado pelo próprio Ministério Público Eleitoral. Das 26 pesquisas registradas para o Governo do Estado entre 3 de abril e 13 de julho, 19 apontavam Allyson Bezerra na liderança e sete colocavam Álvaro Dias à frente. Segundo o parecer, as pesquisas que apontavam Álvaro na liderança apresentavam irregularidades documentadas. O documento cita diferentes empresas de pesquisa e aponta, em regra, problemas relacionados à execução dos levantamentos ou à participação dos mesmos responsáveis.
Ao analisar as circunstâncias em conjunto, o procurador afirma que elas “indiciam a existência de esquema organizado de produção e divulgação de pesquisas fraudulentas destinadas a influenciar a formação da vontade do eleitorado”. O Ministério Público Eleitoral pede que os fatos sejam apurados criminalmente, inclusive com a possibilidade de instauração de procedimento investigatório ou requisição de inquérito policial à Polícia Federal. Também foram solicitadas perícias estatística e georreferenciada, além da reconstrução da cadeia de coleta e do exame das bases de dados das pesquisas envolvidas.
