Allyson e Cadu acenam às mulheres e buscam distância do bolsonarismo

Postado em 9 de julho de 2026

Os pré-candidatos ao Governo do Rio Grande do Norte Allyson Bezerra (União) e Cadu Xavier (PT) fizeram, nos últimos dias, movimentos públicos em direção ao eleitorado feminino e, por caminhos diferentes, buscaram marcar distância do bolsonarismo em um segmento que representa a maioria do eleitorado no Estado. De acordo com a Justiça Eleitoral, o RN tem 2,6 milhões de eleitores aptos a votar, dos quais 53% são mulheres e 47% são homens.

O aceno de Allyson e Cadu ocorre em meio às dificuldades enfrentadas pelo campo bolsonarista entre as eleitoras e ganhou contornos ainda mais explícitos após declarações do empresário e influenciador Paulo Figueiredo, aliado da família Bolsonaro e uma das vozes mais conhecidas desse segmento político. No fim de junho, ele afirmou que mulheres “votam estatisticamente muito mal”, sobretudo as solteiras, e sustentou que mulheres casadas tendem a acompanhar o voto dos maridos.

Em meio à polêmica, Allyson usou as redes sociais nesta terça-feira 7 para convocar apoiadores para o “Inspira Mulher”, evento do União Brasil marcado para esta quinta-feira 9, a partir das 18h30, no Requinte Buffet, em Mossoró. Na legenda da publicação, o pré-candidato apresentou o encontro como uma iniciativa para ampliar a presença feminina na vida pública.

“Um evento do União Brasil e do União Brasil Mulher para inspirar, incentivar e motivar cada vez mais a participação feminina na política”, escreveu Allyson. O ex-prefeito de Mossoró ressaltou ainda que a programação será aberta a homens e mulheres e convocou apoiadores para o encontro.

No vídeo, o pré-candidato reforçou a defesa da participação das mulheres na política. “É para todo mundo participar, se engajar nessa importante causa, que é a mulher na política, fazendo política, representando, sendo representada, participando ativamente”, afirmou.

O movimento de Allyson ocorre também em uma chapa que reserva às mulheres um dos principais espaços da disputa majoritária. A senadora Zenaide Maia (PSD) é a candidata ao Senado no grupo político do pré-candidato ao Governo. A parlamentar buscará a reeleição e integra a composição liderada pelo ex-prefeito de Mossoró. Além disso, a mulher de Allyson, a pedagoga Cinthia Pinheiro (União), já anunciou que será candidata a deputada estadual.

Cadu Xavier, por sua vez, fez um movimento mais diretamente confrontador ao bolsonarismo. Em publicação nas redes sociais, o pré-candidato petista resgatou as declarações de Paulo Figueiredo e afirmou que a tentativa de desqualificar o voto das mulheres expressa uma característica do campo político ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

“Desqualificar o voto feminino em pleno século 21 é a cara do bolsonarismo”, afirmou Cadu. Na legenda do vídeo, acrescentou: “Do lado de cá, mulher tem voz, tem vez e tem o direito de ocupar qualquer espaço que desejar!”.

Cadu afirmou que o pensamento expressado por Paulo Figueiredo remete a uma visão de submissão feminina. “Isso é a cara de quem entende que as mulheres têm que ser submissas aos homens. É a cara do bolsonarismo”, declarou. Em seguida, ampliou a crítica e vinculou esse tipo de pensamento às raízes da violência de gênero. “É desse tipo de pensamento, inclusive, que nasce a violência contra a mulher”, disse.

O petista defendeu ainda a presença feminina nos espaços de decisão política. “Do lado de cá, a gente entende que a mulher deve estar onde ela quiser, que ela tem direito de votar como quiser e de ser votada. As mulheres precisam estar nos espaços de poder”, afirmou. Para Cadu, o discurso representado pelas declarações de Figueiredo traduz um “pensamento retrógrado do século passado” que deve ser “veementemente combatido”.

Assim como no grupo de Allyson, a composição política liderada por Cadu tem uma mulher entre os nomes destinados às principais vagas da eleição. A vereadora de Natal Samanda Alves (PT) será candidata ao Senado. Além disso, o pré-candidato ao Governo já declarou publicamente que defenderá a governadora Fátima Bezerra (PT) na eleição e que prefere ter uma mulher como candidata a vice-governadora, embora a definição da chapa ainda dependa das articulações partidárias.

Mulheres resistem ao bolsonarismo
A movimentação dos dois pré-candidatos ocorre em um ambiente nacional no qual o bolsonarismo enfrenta dificuldades persistentes junto ao eleitorado feminino. As próprias declarações de Paulo Figueiredo surgiram durante uma discussão sobre esse problema eleitoral. Ao comentar divergências envolvendo a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) e seu enteado Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência, o influenciador observou que o senador apresentava desempenho pior justamente entre as mulheres.

A partir daí, Figueiredo avançou para uma crítica generalizada ao comportamento eleitoral feminino. “Mulher vota estatisticamente muito mal. Principalmente mulheres solteiras. Mulheres casadas, em geral, tendem a acompanhar o voto do marido”, afirmou.

Na mesma transmissão, usou linguagem ofensiva ao antecipar as reações à declaração. Disse que as mulheres descontentes poderiam “arrancar os pentelhos das calcinhas” e insistiu que sua avaliação seria baseada em estatísticas. Dias depois, diante da repercussão negativa, não recuou. Ao contrário, agravou a declaração em uma publicação na rede social X. “Deixa eu me retratar: mulher não vota muito mal, mulher vota mal PARA CARALHO. Especialmente as solteiras”, escreveu. Figueiredo atribuiu ainda o comportamento eleitoral feminino ao avanço do que chamou de “ideologia demoníaca feminista”.

As falas aprofundaram uma dificuldade que já aparece nas pesquisas nacionais. Levantamento Datafolha citado à época da polêmica mostrava Lula vencendo Flávio Bolsonaro por 52% a 37% entre as mulheres em uma simulação de segundo turno, enquanto, entre os homens, o senador bolsonarista aparecia à frente por 50% a 41%.

No RN, chapa de Álvaro é a única que não tem mulheres
No Rio Grande do Norte, a família Bolsonaro declarou apoio à pré-candidatura de Álvaro Dias (PL) ao Governo do Estado. A chapa apresentada durante a pré-campanha não tem nenhuma mulher entre os principais cargos: o vice de Álvaro será Babá Pereira (PL), enquanto os candidatos ao Senado são Coronel Hélio (PL) e Styvenson Valentim (Podemos). Das três principais chapas já apresentadas no RN, a de Álvaro é a única que não tem mulheres em lugar de destaque.

Em abril, ao ser questionado sobre o tema, Álvaro admitiu que a construção da chapa foi um equívoco, mas não sinalizou mudanças nos principais cargos. “Pois é, né. Realmente, talvez tenha sido uma falha aí, mas a chapa, os dois senadores, candidato a governador e vice, todos homens”, afirmou Álvaro em entrevista à rádio 98 FM.

Apesar de ter declarado inicialmente que a composição estava “concluída” e “resolvida”, o pré-candidato admitiu, em outro momento da entrevista, que ainda podem ocorrer ajustes. Segundo ele, a condução das articulações está sob responsabilidade do senador Rogério Marinho, presidente do PL no RN e que lidera as negociações políticas do grupo.

Álvaro indicou que eventuais mudanças podem ocorrer, sobretudo nas suplências ao Senado, abrindo espaço para inclusão feminina. “Tem ainda as suplências para o Senado e, de repente… Em política, nada é definitivo. De repente, o senador Rogério Marinho pode entender que é importante ter como suplente uma mulher, todas os suplentes serem mulheres”, disse.

agora rn