Facção potiguar se alia a grupo criminoso do Rio de Janeiro e avança no RN, diz jornal

O Rio Grande do Norte está entre os estados impactados pela reconfiguração do crime organizado no Brasil, marcada pela formação de alianças entre grandes facções nacionais e grupos regionais. Levantamento publicado pela Folha de S.Paulo aponta que o Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando Vermelho (CV) e o Terceiro Comando Puro (TCP) já atuam em articulação com organizações locais em ao menos 17 estados, incluindo o RN.
Segundo a apuração, baseada em investigações da Polícia Federal, polícias civis e dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, essas alianças têm caráter pragmático e são voltadas à expansão territorial e ao fortalecimento de mercados ilícitos, especialmente o tráfico de drogas. A lógica é ampliar presença e reduzir custos operacionais, com divisão de funções entre facções nacionais e grupos regionais.
No mapa apresentado pelo levantamento, o Rio Grande do Norte aparece com atuação do Sindicato do Crime, facção local que mantém conexões com o TCP. A dinâmica observada no Estado segue um padrão identificado em outras regiões: grupos locais preservam certa autonomia, enquanto facções nacionais oferecem apoio logístico, fornecimento de drogas e articulação em rotas interestaduais e internacionais.
Especialistas ouvidos pela reportagem indicam que o crime organizado no Brasil deixou de operar de forma isolada e passou a atuar em rede, com alianças que atravessam estados e até fronteiras. O pesquisador Bruno Paes Manso, do Núcleo de Estudos da Violência da USP, afirma que a configuração das alianças é influenciada pelas necessidades históricas das facções. Nesse cenário, o TCP tem se expandido ao atuar como aliado natural de grupos que resistem à presença do CV.
Já o PCC, segundo a investigação, consolidou um modelo mais estruturado de atuação, com foco em logística e articulação internacional. A facção paulista ampliou sua presença fora de São Paulo após 2016, especialmente em estados do Norte e Nordeste, buscando acesso a rotas estratégicas e mercados consumidores. O Brasil tem sido utilizado como um hub logístico para o envio de drogas à Europa, Ásia e África.
O estudo também aponta que, ao contrário do passado recente, há uma redução relativa nos confrontos diretos entre facções em algumas regiões. A diminuição da violência, no entanto, não representa enfraquecimento das organizações, mas sim uma mudança de estratégia. “Os grupos perceberam que, quanto menos guerra, menos custo”, avalia Bruno Paes Manso.
Outro ponto destacado é o papel das alianças na disputa por rotas do tráfico. Entre os principais corredores estão a Rota Caipira (que passa por Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais e São Paulo), a Rota do Alto Solimões (na região amazônica), a Rota da Bolívia e a Rota do Vale do Juruá. Embora o RN não esteja diretamente listado entre essas rotas principais, sua posição geográfica no Nordeste e a presença de facções articuladas o inserem na dinâmica nacional do tráfico.
Para o delegado Guilherme Egydio, do Centro de Inteligência da Polícia Civil do Rio de Janeiro, há uma tendência de crescimento dessas alianças, com grupos como o TCP atuando como intermediários na expansão do PCC em determinadas regiões. Ele destaca que o PCC passou a atuar de forma mais estruturada fora de São Paulo a partir de 2017, oferecendo drogas mais baratas e tentando cooptar lideranças locais.
A coordenadora do Centro de Inteligência e Análise Telemática, Ages Macedo, ressalta que o enfrentamento ao crime organizado precisa focar não apenas nos executores, mas principalmente nas lideranças e nas estruturas financeiras das facções. Segundo ela, há também uma troca de informações constante entre organizações criminosas, o que aumenta a complexidade das investigações. A articulação entre facções nacionais e grupos locais reforça a necessidade de estratégias integradas de segurança.
Por O Correio de Hoje
