RN registra pior mês de abril na geração de empregos formais desde 2022, aponta Caged

O mês de abril deste ano foi o pior na geração de empregos formais do Rio Grande do Norte desde 2022, com perda de 156 vagas, segundo dados do Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Novo Caged) divulgados na última semana e compilados pelo Sebrae-RN. Nos anos anteriores, os saldos de empregos formais em abril foram positivos: 1.838 vagas em 2022, 1.709 em 2023, 2.728 em 2024 e 2.686 em 2025.
Apesar de o acumulado do primeiro quadrimestre de 2026 ser positivo (+242 vagas), ele representa o segundo pior resultado dos últimos cinco anos. O desempenho ficou acima apenas do registrado em 2022, quando o estado acumulou saldo negativo de 44 vagas no primeiro quadrimestre. Nos anos seguintes, os resultados foram significativamente melhores: 1.759 vagas em 2023, 5.818 em 2024 — o melhor desempenho da série — e 3.110 em 2025. Assim, embora o acumulado de 2026 permaneça positivo, ele indica uma desaceleração expressiva na geração de empregos formais em comparação com os anos anteriores
Em abril de 2026, o RN registrou a terceira maior perda de postos de trabalho formais do país (20.089 admissões contra 20.245 desligamentos). O resultado ocorreu após um mês positivo na geração de empregos – em março o RN criou 1.127 novas vagas com carteira assinada. Apenas três estados tiveram saldo negativo em abril: RN, Alagoas (-1.505) e Rio Grande do Sul (-1.396).
A análise por portes das empresas e por segmentos econômicos, de acordo com o Boletim de Emprego do Sebrae-RN, revela importantes contrastes em abril deste ano. Apenas as microempresas tiveram saldo positivo de empregos formais (+781), contra grandes (-361), médias (-336) e pequenas (-240). Três setores econômicos tiveram resultado negativo no estado: agropecuária (-1.050), indústria (-152) e comércio (-354). Por outro lado, construção criou 185 novas vagas, e serviços teve saldo positivo de 1.218 postos de trabalho.
Para o economista Helder Cavalcanti, o resultado de abril de 2026 “demonstra uma perda de dinamismo em comparação aos anos anteriores”. “Embora o saldo […] não represente uma deterioração generalizada do mercado de trabalho, ele sinaliza uma desaceleração que precisa ser acompanhada”, diz.
Segundo ele, os dados mostram que o saldo negativo foi influenciado pelo encerramento de atividades temporárias e pela sazonalidade de algumas cadeias produtivas. “Em estados com participação relevante da atividade agrícola, é comum ocorrerem oscilações em função dos ciclos de plantio, colheita e processamento”, explica.
Na visão do economista Arthur Néo, vice-presidente do Conselho Regional de Economia do RN, apesar de o saldo potiguar ter sido “ligeiramente negativo”, um único mês não define tendência. “É importante observar o acumulado do ano e o comportamento dos próximos meses”, afirma Néo.
Em abril de 2025, o RN registrou desempenho positivo em quatro setores, com destaque para o de serviços, que terminou o mês com um saldo de 2.432 vagas. Na sequência, vieram construção (440), comércio (217) e indústria (206). O setor agropecuário apresentou saldo negativo, com -608 vagas.
“O resultado [de 2026] decorre principalmente do desempenho negativo de setores que possuem peso importante na economia potiguar, especialmente a agropecuária”, diz Cavalcanti.
De acordo com o economista Arthur Néo, após dois anos de recuperação do mercado de trabalho, é natural que haja uma acomodação. “Se setores estratégicos voltarem a investir e a indústria recuperar parte das perdas observadas em 2026, o estado pode retomar uma trajetória mais robusta de geração de vagas”.
Agro perde mais de 5 mil vagas em 2026
A desaceleração do mercado formal não ocorreu de forma homogênea, mas concentrada em alguns segmentos, explica Helder Cavalcanti. Na agropecuária, “esse comportamento [de queda] está relacionado principalmente à sazonalidade das atividades rurais”.
A indústria perdeu 152 vagas em abril, o que, para Cavalcanti, reflete “desafios históricos relacionados à competitividade, custos operacionais e necessidade de novos investimentos”.
O setor é considerado estratégico, pois gera empregos de maior qualificação e produtividade. No acumulado do ano, a indústria no RN fechou 1.181 vagas, sendo -1.161 vagas na fabricação de álcool.
Já o comércio perdeu 354 vagas em abril de 2026, ante um resultado positivo em 2025, refletindo o comportamento das famílias brasileiras, que convivem com elevado comprometimento de renda, endividamento e juros altos.
“O setor de serviços também continuou gerando empregos, confirmando uma tendência observada nos últimos anos; e a construção civil manteve desempenho positivo, impulsionada por investimentos imobiliários, obras públicas e projetos de infraestrutura”, acrescenta Helder.
A Federação da Agricultura, Pecuária e Pesca do RN (Faern) avalia que o desempenho potiguar parece refletir fatores conjunturais, incluindo comportamentos sazonais de alguns setores econômicos, ajustes no ritmo de contratação e condições específicas da atividade produtiva regional.
O resultado do setor agropecuário, diz a entidade, indica um “comportamento com importante componente sazonal, associado aos ciclos produtivos do setor no Nordeste”. No acumulado de 2026, o saldo do setor é de -5.332 vagas, com -3.493 perdas no cultivo de melão.
A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do RN (Fecomércio-RN) avalia que o mercado de trabalho potiguar encontra sustentação nos segmentos ligados ao comércio e aos serviços. No acumulado dos quatro primeiros meses de 2026, Serviços abriu 4.766 vagas, e Comércio, 184.
Na avaliação de Ismália Carvalho, diretora-executiva do Sindicato da Indústria da Construção Civil do RN (Sinduscon), o saldo positivo da construção demonstra a resiliência do setor. “Embora o resultado tenha ficado abaixo do registrado em abril de 2025, a geração de novos postos de trabalho está associada à continuidade de obras em andamento e ao lançamento de novos empreendimentos no estado”, frisa.
Pequenos negócios se destacam
Já em relação ao porte dos empregadores, Arthur Néo avalia que os dados mostram uma realidade ambígua. “É um sinal de resiliência da economia potiguar que as microempresas tenham gerado mais de 5 mil empregos em 2026, compensando as perdas observadas nas médias e grandes empresas”.
“Por outro lado, quando praticamente todo o saldo positivo do emprego depende das microempresas, surge um sinal de alerta. Economias mais robustas costumam apresentar geração de vagas distribuída entre empresas de todos os portes”, acrescenta.
Na visão do superintendente do Sebrae-RN, Zeca Melo, as microempresas demonstram grande capacidade de adaptação e resposta rápida às demandas do mercado. “Esse desempenho evidencia a força do empreendedorismo local e a importância dos pequenos negócios para a economia potiguar”.
“Ao mesmo tempo, alguns segmentos de empresas de maior porte enfrentam ciclos de ajuste e fatores conjunturais que impactam suas contratações. O cenário reforça o papel estratégico das microempresas na sustentação da atividade econômica e do emprego no estado”, destaca Melo.
Municípios de destaque
Quanto aos municípios que mais empregaram ou demitiram em abril de 2026, o boletim do Sebrae-RN destaca como maiores empregadores: Natal (+219 vagas), Açu (+109), São Gonçalo do Amarante (+90), Currais Novos (+84) e Pau dos Ferros (+79). Por outro lado, Mossoró (-246), Ipanguaçu (-117), Jandaíra (-113), Baraúna (-93) e Guamaré (-92) demitiram.
Zeca Melo explica que, em Pau dos Ferros, por exemplo, observa-se o “fortalecimento das atividades ligadas ao comércio e aos serviços especializados”.
Já Currais Novos vive um momento de ascensão. “Além do comércio e dos serviços, vê-se oportunidades associadas à mineração, ao turismo de experiência, à economia criativa e às cadeias produtivas vinculadas ao setor rural”, afirma.
Tribuna do Norte
