Debate da Globo: Lula e Flávio trocam acusações e discutem corrupção, segurança e economia

Postado em 24 de outubro de 2026

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidatos à Presidência da República, protagonizaram trocas de acusações e apresentaram propostas sobre economia, segurança pública, saúde e programas sociais durante o último debate antes do segundo turno das eleições de 2026. O confronto foi realizado pela TV Globo, na noite desta sexta-feira (23), a dois dias da votação, marcada para domingo.

Mediado pelo jornalista César Tralli, o debate foi dividido em quatro blocos, sendo três com temas definidos e um de tema livre. Ao longo do encontro, os candidatos compararam os resultados dos governos petistas e da gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), além de discutirem medidas para o combate ao crime organizado, endividamento das famílias, infraestrutura e investimentos em serviços públicos.

O confronto também teve momentos de tensão, principalmente durante questionamentos sobre o Banco Master, suspeitas de corrupção, a atuação do governo Bolsonaro durante a pandemia de Covid-19 e o caso da menina Ana Clara, de cinco anos, morta por um tiro de fuzil em 2021. 

Economia, endividamento e programas sociais

A situação econômica do país esteve entre os principais assuntos discutidos. Flávio Bolsonaro criticou o governo Lula pelo aumento do endividamento das famílias, pelos juros elevados e pelo custo de vida. O senador afirmou que mais de 80 milhões de brasileiros estão com contas atrasadas e apresentou propostas para facilitar a renegociação de dívidas.

Entre as medidas, Flávio defendeu transformar a Caixa Econômica Federal no chamado ‘Banco da Prosperidade’, com o objetivo de refinanciar dívidas e ampliar o acesso ao crédito. O candidato também prometeu reajustes do salário mínimo e das aposentadorias acima da inflação, além da manutenção do Bolsa Família.

Lula rebateu as críticas e destacou os resultados do programa Desenrola, criado para renegociar dívidas. O presidente também defendeu a política de valorização do salário mínimo e propôs um leilão de até R$ 150 bilhões para a compra de dívidas bancárias com desconto.

Outro ponto abordado foi o impacto das apostas esportivas online, conhecidas como bets. Lula defendeu o fim da atividade no país, argumentando que os jogos comprometem o orçamento das famílias e contribuem para problemas sociais. 

Segurança pública e morte de criança

Na área da segurança pública, Flávio Bolsonaro defendeu o endurecimento da legislação penal, incluindo a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos e a responsabilização criminal a partir dos 14 anos em casos de estupro. O senador também propôs penas mais rígidas para roubos de celulares e a classificação de facções criminosas, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), como organizações narcoterroristas.

Lula, por sua vez, defendeu a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública e o fortalecimento da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal. O presidente afirmou que pretende criar um Ministério da Segurança Pública, caso a proposta seja aprovada.

Um dos momentos de maior tensão ocorreu quando Lula questionou Flávio sobre sua atuação na defesa de um policial militar acusado de envolvimento na morte da menina Ana Clara, de 5 anos, em 2021, em Niterói, no Rio de Janeiro. A mãe da criança estava presente na plateia.

Flávio manifestou solidariedade à família e afirmou acreditar na inocência do policial. O senador também rebateu acusações feitas por Lula sobre supostas ligações políticas com milicianos no Rio de Janeiro. 

Banco Master e acusações de corrupção

As suspeitas envolvendo o Banco Master também foram discutidas, principalmente durante o bloco de tema livre. Lula questionou Flávio Bolsonaro sobre recursos ligados ao empresário Daniel Vorcaro, dono do antigo Banco Master, destinados ao financiamento de um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.

O presidente mencionou o valor de R$ 134 milhões e cobrou explicações do adversário sobre sua relação com o empresário. Flávio negou irregularidades e afirmou que os recursos foram destinados a uma produção privada, sem utilização de dinheiro público ou contrapartidas relacionadas ao exercício de seu mandato.

O senador também apresentou acusações contra integrantes do governo Lula, mencionando supostas tentativas de direcionamento de investimentos de fundos de pensão ao Banco Master. As declarações foram contestadas pelo presidente.

Lula ainda questionou Flávio sobre uma disputa judicial envolvendo uma ilha em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, relacionada ao jogador Richarlison. O candidato do PL negou irregularidades e afirmou que a questão já havia sido decidida definitivamente pela Justiça. 

Saúde pública e pandemia de Covid-19

Na discussão sobre saúde, Flávio criticou problemas no atendimento do Sistema Único de Saúde (SUS), como filas para consultas, dificuldades de acesso a tratamentos e falta de medicamentos. O senador defendeu melhorias na gestão e na estrutura da rede pública.

Lula destacou investimentos realizados durante seu governo e voltou a questionar a atuação do ex-presidente Jair Bolsonaro durante a pandemia de Covid-19, especialmente em relação à compra de vacinas.

O presidente também mencionou uma suposta reunião envolvendo Flávio e empresários durante as negociações para a aquisição da vacina Covaxin. O senador rejeitou as acusações e contestou as declarações do adversário. 

Infraestrutura e investimentos nas regiões

O debate também abordou propostas para o desenvolvimento das diferentes regiões do Brasil. Flávio Bolsonaro criticou a quantidade de obras públicas paralisadas e prometeu ampliar investimentos em ferrovias, rodovias, concessões e acesso à internet.

Lula rebateu as críticas e destacou investimentos federais em infraestrutura, mencionando projetos como a Ferrovia Transnordestina, no Nordeste, e o túnel Santos-Guarujá, em São Paulo.

Os candidatos também divergiram sobre a capacidade de investimento do governo federal e a participação da iniciativa privada na execução de obras públicas. 

Ataques pessoais e considerações finais

Além das discussões sobre propostas de governo, o debate teve ataques pessoais entre os candidatos. Em um dos momentos, Flávio Bolsonaro fez referência aos nove dedos de Lula, que perdeu um dedo da mão esquerda em um acidente de trabalho na juventude. Após a declaração, o senador pediu desculpas.

O presidente respondeu lembrando as circunstâncias do acidente e criticou o adversário. Durante o encontro, Lula também procurou associar Flávio à gestão do pai, Jair Bolsonaro, enquanto o senador concentrou parte das críticas na condução econômica e administrativa do atual governo.

Nas considerações finais, Lula voltou a fazer acusações sobre supostas ligações de Flávio com milícias. O senador negou as afirmações e recebeu direito de resposta. Ambos encerraram suas participações pedindo votos para o segundo turno.

O debate da Globo foi o último encontro televisivo entre os dois candidatos antes da votação deste domingo (25), quando os eleitores brasileiros escolherão o presidente da República para os próximos quatro anos.

tribuna do norte