Médicos de UTI ameaçam parar por atrasos, e Sinmed alerta para risco de desativar UTI do Walfredo Gurgel

Postado em 10 de setembro de 2026

Quem atende nas Unidades de Terapia Intensiva do Rio Grande do Norte pode cruzar os braços, e o motivo é pagamento atrasado. No Monsenhor Walfredo Gurgel, hospital da capital, o Sinmed-RN — sindicato que representa a categoria no estado — avisa que a escassez de profissionais pode chegar ao ponto de desativar uma das UTIs da unidade.

A dívida com os intensivistas do Walfredo Gurgel chegou a acumular meses de atraso, e a estimativa gira em torno de R$ 6 milhões. Havia uma paralisação cogitada para 1º de setembro, que acabou não acontecendo: o Governo do Estado quitou março e abril às vésperas da data. O pagamento aliviou, mas está bem longe de ter regularizado a situação — os repasses cobriram parte do passivo, não o conjunto dele.

Há um detalhe estrutural por trás disso. Parte das escalas das UTIs é preenchida por gente contratada por meio de empresa terceirizada, e não por servidor concursado. Pelas contas que as entidades médicas apresentam, quem é servidor da própria rede cobre algo entre 40% e 50% dos plantões; o restante depende de contratação complementar.

“O atraso é insuportável”
Para Geraldo Ferreira, que preside o Sinmed-RN, o efeito prático do atraso é a debandada: o médico simplesmente vai para onde o pagamento sai em dia. E é essa dificuldade crescente de completar escala que hoje coloca em xeque o funcionamento de uma UTI inteira no Walfredo Gurgel.

“No Walfredo Gurgel, as informações que me foram passadas é que há a possibilidade de desativação de uma das UTIs em razão de falta de profissionais. Por quê? Porque o atraso é insuportável, é intolerável, os profissionais não conseguem sobreviver”, afirmou.

Conforme o dirigente, basta aparecer uma oportunidade com pagamento regular para o profissional deixar o serviço em atraso — e cada saída dessas torna mais difícil fechar as escalas seguintes, num efeito que se acumula.

Não é só o Walfredo
O quadro se repete fora dali. Há outras unidades, na capital e no interior, que igualmente dependem de terceirizados para fechar escala e passam pelo mesmo aperto. Foram citados os hospitais Santa Catarina e Deoclécio Marques, ao lado de serviços espalhados pelo interior potiguar.

Ferreira sustenta que o atraso é generalizado tanto na rede privada quanto na complementar, aquela que presta serviço ao poder público. Na leitura dele, a dificuldade financeira dessas unidades acaba recaindo sobretudo sobre o pagamento de quem está na ponta, atendendo o paciente.

Não é a primeira vez, aliás, que a conta atrasada se transforma em ameaça de parada. Na última semana de julho, os hospitais privados que têm convênio com o Governo do Estado anunciaram que suspenderiam o atendimento prestado pelo Sistema Único de Saúde por falta de repasse. A situação só se normalizou quando o Executivo liberou pouco mais de R$ 17 milhões, pagos em duas parcelas.

Falta material, falta remédio, falta gente
Atraso de pagamento, contudo, não é a única queixa que chega aos conselhos. Marcos Antônio Tavares Jácome da Costa Britto, que é vice-presidente do Cremern, o conselho regional de medicina do estado, chamou atenção para problemas estruturais nos hospitais da rede. O que mais se ouve dos profissionais, segundo ele, é a falta de material e de medicamento — um problema que dá trégua em alguns períodos e logo depois retorna.

“O principal motivo de reclamação dos profissionais que lá trabalham, desses hospitais maiores do Estado, é sempre a mesma situação: materiais e medicamentos”, afirmou o dirigente do conselho. Ele lembrou episódios recentes ocorridos em Mossoró e afirmou que a irregularidade do abastecimento segue entre as maiores dificuldades enfrentadas pelas unidades da rede. “Falta de insumos, aí a regularidade do abastecimento passa por crise, melhora um pouco, depois volta a piorar. Essa é a principal reclamação, além de falta de pessoal”, declarou.

A terceirização, no diagnóstico do conselho, tapa buraco mas não resolve o fundo do problema. “A complementação de pessoal via terceirização, muitas vezes resolve, em parte, uma escala, mas deixa sempre a desejar e o motivo de reclamação é contínuo”, disse Britto — ou seja, a solução emergencial já virou rotina sem deixar de ser insuficiente.

No fim dessa linha está o paciente. Britto apontou as filas de espera por procedimentos, em diferentes especialidades, como um dos reflexos mais visíveis de tudo isso. “Enquanto existir essas filas de gente aguardando para ter a sua assistência digna, isso ainda vai prejudicar muitas pessoas”, declarou.

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